Brasileros & Hermanos

Brasil-x-Argentina1Quem conhece esse que vos escreve sabe da minha admiração pela cultura, música, gente e história argentina. Depois de quase uma dezena de vezes por lá e após conhecer alguns países de continentes variados, cada vez mais tenho a convicção de que minha segunda pátria é mesmo a Argentina. Isso não se escolhe; se sente. Por isso, “me tomo” a liberdade de escrever o que se segue.

Por conta da final da Copa do Mundo, entre Argentina e Alemanha, o assunto da rivalidade entre nós e os argentinos voltou à tona com força total. Ouvi, de argentinos, que os brasileiros foram muito “mala onda” com eles, apoiando qualquer seleção contra quem jogassem. Também ouvi, de brasileiros, que nenhum país provocou tanto a nossa seleção quanto nossos vizinhos. Para mim, ambos estão certos em suas análises. A resposta é uma só: futebol. Talvez a única afirmação de Nelson Rodrigues com a qual concordo inteiramente tem a ver com isso: “o futebol é coisa mais importante dentre as coisas que não têm importância”. E aí, provocações, mandingas, secagens e macumbas estão permitidas. Porque é só futebol. Somos rivais, ou arqui-rivais, no campo. E toda rivalidade, no fundo, é uma declaração de amor: você reconhece no outro a importância que lhe cabe.

O problema é quando isso extrapola o futebol. É comum também ouvir argentinos que se decepcionaram com a imagem pejorativa que fazem deles aqui e brasileiros que se sentiram ofendidos, pela cor ou por como tratam as mulheres brasileiras, em Buenos Aires. Também acho, infelizmente, que os dois pontos de vista não são invenções. Somos reféns, nós, amantes declarados da Argentina, de brasileiros que insistem em investir numa imbecilidade extra-campo; como também são reféns os argentinos, que amam a “alegria” brasileira, de compatriotas preconceituosos, formado por famílias que igualmente o são. É bom lembrarmos que, pro bem e pro mal, a imbecilidade não tem pátria: reconheço de longe um babaca brasileiro e um pelotudo argentino. São bem parecidos no asco. A questão é não tornar isso uma defesa “nacional”. Me identifico com seres humanos e não necessariamente com pessoas que, por um acaso, nasceram no mesmo território que eu.

Venho reparando, desde 2002, quando lá estive pela primeira vez, que quanto mais a nossa economia melhorou, mais os brasileiros viajaram pra Buenos Aires e mais aquele velho ranço foi se perdendo: cada vez mais se ama a Argentina, mais voltam brasileiros maravilhados com o que se encontra por lá e mais camisas da seleção celeste se veem nas ruas daqui. (Necessário comentar que o contrário não se vê quase nunca: não me recordo de uma camisa da seleção brasileira, vestida por um argentino, por lá).

Mas, mesmo sem camisas da nossa seleção – de novo: é só o futebol – a admiração e até uma certa inveja dos sorrisos, das praias, dos biquínis, das sungas, da informalidade, dos chinelos etc. é facilmente sentida por lá.

A antropologia nos ensina a familiarizar o estranho e a estranhar o familiar. E isso tem uma intenção subliminar: reconhecermo-nos como seres humanos. Há algo que nos une, independente de cultura. Para nós, brasileiros e argentinos, tão próximos, isso é ainda mais evidente e forte. Somos parecidos no terceiromundismo, na história de exploração, nas ditaduras covardes militarescas (eles bem à frente nas punições aos torturadores, é certo), nos amores passionais, no futebol que nos atravessa a garganta, nas gozações irônicas e nas fronteiras.

O símbolo disso tudo é o título deste texto. Talvez sejam eles os únicos no mundo a nos chamarem de “brasileros”, imitando como nós mesmos nos chamamos (em castellano, seria mais comum “brasileños”). E nós, dentre tantos países com que fazemos fronteira, temos só um a quem chamamos de “hermano”.

Mesmo sabendo que serei(mos) alvo de gozações (de novo, é só o futebol) por ganharem uma Copa em pleno Brasil ou que inflará aquele tipo “pelotudo”, nós temos os nossos imbecis aqui que também ficarão merecidamente desgostosos. Não foi fácil, para mim, chegar a essa conclusão – de novo: pelo futebol –, mas até para o futebol tomar um serviço social, de educação e de uma integração de vez com aqueles que, como nós, queremo-nos mais unidos e que se envergonham dos nossos babacas e pelotudos, torço pela Argentina.

¡Suerte hermanos!

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Yasmim, especismo e o senso comum

WP_000585-1Quando eu era bem pequeno, o senso comum me ensinou que os gatos eram traiçoeiros e ariscos. Nos meus 10 anos de idade, meus pais adotaram uma gata, Yasmim, filha do gato da minha avó. Estranhava que, ao contrário do que me ensinaram, ela seguia a gente em todos os cantos da casa, de vez em quando acordava alguém com a língua áspera na testa e gostava de brincar de se esconder. As brincadeiras muitas vezes eram de morder, o que assustava alguns, principalmente o senso comum. Aos poucos, fui percebendo que entre eles – os gatos – a brincadeira era a mesma. Não para machucar. Também achava curioso o estranho hábito que eles têm de esfregar a cabeça na perna dos outros ou nas quinas dos sofás. Acho que ali tive meu primeiro questionamento sobre o especismo: desci do altar da sabedoria humana e resolvi experimentar e imitar o que faziam. Descobri, mais tarde na yoga, que massagear a cabeça já era um hábito que os orientais descobriram dos felinos. Para mim, surgiu como original: fui ensinado por um gato.

Aulas não são necessariamente nas salas. Cada vez mais, inclusive, estão fora das classes. Uma importante perspectiva da minha relação com a natureza também foi influenciada pelos gatos. Aprendi que, por mais que tratemos por “animais domésticos”, a natureza não se domestica. Quando não se quer carinho, quando não se quer interagir ou servir de boneco nas mãos grandes de um ser humano, o felino vai demonstrar que não quer. Nós, ocidentais, babacas, a-bola-é-minha, leite-com-pera chiamos. Daí, comecei a entender o adjetivo “traiçoeiro” atribuído aos gatos. Não eram eles os traiçoeiros, mas nós os mimados domesticadores de animais que queremos o mundo aos nossos pés servil. A vontade do outro é essencial para a natureza; a perspectiva de que vale só a nossa vontade é que é traiçoeira e arrogante: não foi avisado ao bicho que ao colocá-lo a viver sob o mesmo teto que você ele deveria aceitar tudo o que fosse proposto.

E mesmo fechados dentro de um apartamento, os gatos não sucumbem ao tédio. Morava no sétimo andar e às vezes me desesperava ao ver a Yasmim na varanda, caminhando altiva pelo pequeno pedaço de concreto que sobrava depois da grade; ou quando ela subia na janela do banheiro e, pelo lado de fora, passava ao forro do teto, o que me fazia ficar segurando os pés da faxineira, que se projetava para fora da janela para tentar agarrar a gata de volta ao mundo do conforto.

Mas não só de sentimentos nobres vivem os animais. Uma vez trouxemos uma gatinha filhote achada na rua para viver com a Yasmim. Entre tapas e cenas de ciúmes, Yasmim acabou se atirando da varanda do 5º andar para tentar fugir. Foi um desespero e acabamos encontrando ela no jardim do prédio, com a boca machucada e um problema no pâncreas que fez com que tomasse remédios homeopáticos até o fim. A outra gata tivemos que dar para a minha avó, onde vive até hoje.

O tempo passou, conheci amigos, namoradas e ela estava lá: ouvindo o que eu dizia e, mesmo sem entender uma palavra – eu acho –, me acompanhava. Da mesma forma, não entendia o que miava, mas também acreditava que entendia. Cresci, virei adolescente, adulto, comecei a ganhar o mundo e ficamos mais distantes. Hoje ela se foi. Filho único, perdi a única irmã que tive durante quase vinte anos. Deixou, silenciosa, um vazio enorme, uma rejeição antropocêntrica eterna, uma ojeriza ao especismo, uma desconfiança ao senso comum, uma identificação enorme com os felinos e uma pequena cicatriz no meu braço direito fruto de uma brincadeira: a única tatuagem que tenho e que me fará lembrar disso tudo para sempre.

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Saturno

Quando ele voltou
Foi-se o equilíbrio
Na foice dos dias

Cem asas de apoio
Vinte anos de vida
e um espírito anfíbio

Tudo foi no refluxo
D’uma órbita lenta
Tímido à medida
de um susto

Quando ele voltou
os ares de Áries
ao espanto dos peixes
sobrepuseram
num alento

Na rotina do caos
romperam-se os pares
Salvou-se a fantasia
no inverno
que invento

Quando ele voltou
Dez quilos de poesia
estragavam ao mar
No sal de um meio-dia

Cem anos de solidão
os ensaios de cegueira…
Nem as veias abertas
Guarneciam a rebeldia

Levou um caminho
Um plano e uma direção
Tudo coube na despedida:
Menos o meu violão

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Chau número tres

Te dejo con tu vida
tu trabajo
tu gente
con tus puestas de sol
y tus amaneceres.

Sembrando tu confianza
te dejo junto al mundo
derrotando imposibles
segura sin seguro.

Te dejo frente al mar
descifrándote sola
sin mi pregunta a ciegas
sin mi respuesta rota.

Te dejo sin mis dudas
pobres y malheridas
sin mis inmadureces
sin mi veteranía.

Pero tampoco creas
a pie juntillas todo
no creas nunca creas
este falso abandono.

Estaré donde menos
lo esperes
por ejemplo
en un árbol añoso
de oscuros cabeceos.

Estaré en un lejano
horizonte sin horas
en la huella del tacto
en tu sombra y mi sombra.

Estaré repartido
en cuatro o cinco pibes
de esos que vos mirás
y enseguida te siguen.

Y ojalá pueda estar
de tu sueño en la red
esperando tus ojos
y mirándote

(Mario Benedetti)

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Carta insular

A beleza do abstrato
não está na evitação do real
mas no aproximar da fantasia

O entreposto do sensível e o imaginável
A alegoria da cura
O impulso que origina o palpável
As formas das sombras: claras e escuras
As figuras de nuvem, de neve e de sonho
Os mitos de origem, reis idealizados e seus tronos

O abstrato: uma invenção tardia.
Antes o homem o concebera na loucura

E esta então seria
um diagnóstico precoce:
faltaria-lhe a estrutura,
para ser, não mácula
mas poesia

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O dia em que Juninho e eu estreamos pelo Vasco

Juninho JP

Era 1995. Eu era uma criança e, como muitos, apaixonado pelo futebol. Pelo futebol não: pelo Vasco. Saia da escola, no Méier, onde morava, com a fome de uma hora da tarde, mas sempre negociava alguns minutos com meu estômago, na banca, para ler os jornais afixados nas laterais. Lembro um dia parar diante daquele jornal cor-de-rosa, o Jornal dos Sports, que nesse dia tinha como matéria principal algo dos outros times do Rio. Sobre o Vasco, só um quadrinho escrito mais ou menos assim no título: “Vasco contrata Leonardo e Juninho”, e logo em seguida se explicava: “Calma torcedores, não se trata dos tetracampeões da seleção”, referindo-se ao Leonardo, que foi do São Paulo e Flamengo, e ao Juninho Paulista, que ironicamente veio depois a jogar no Vasco, “mas de jovens promessas que vieram do Sport Recife”. Li e pensei: vamos ver quem são, vai que surpreendem. E fui pra casa almoçar.

Semanas depois meu pai me levou num jogo em São Januário: era a estreia, para mim, do tal Juninho que, por haver o então famoso Juninho Paulista, virou Juninho Pernambucano para que fosse diferenciado. E era mesmo. Como se fosse hoje, lembro de estar na arquibancada sob um sol escaldante – faz muito calor em São Januário! – e ver um moleque pegar uma bola na meia esquerda e lançar perfeitamente para alguém lá na frente. A torcida aplaudiu e fez coro. Hoje pensando, tenho certeza: ali se desenhava, ainda sem dimensão da grandeza, uma paixão da torcida pela tal promessa vinda de Recife; um deslumbramento inicial. Não lembro se ganhamos ou não, mas de ter certeza de gostar do cara que o jornal disse pra ter calma. Para mim, era também a minha estreia, como torcedor. Até então, todos os jogadores que tinha visto jogar no Vasco já estavam lá no campo bem antes de eu ser um torcedor. De alguma forma, me sentia na mesma situação daquele jogador: acanhado e deslumbrado pela massa de gente que ornava a arquibancada. De outra, também me sentia portador de uma informação sigilosa: quem mais no Brasil teria lido aquele quadrinho, exposto numa banca do Méier?

Juninho, apesar de sempre ter jogado bem, não virou ídolo de uma hora para outra. Alguns anos foram necessários para a transmutação de xodó em rei. Ganhamos o Campeonato Brasileiro de 1997 e, naquele ano, Edmundo era o nome e referência. Mas as ações são simbólicas e, às vezes, o trabalho e história de muitos jogos, passes milimétricos, dedicação e gols surgem num átimo de segundo, numa jogada. E assim foi. Em 1998, eis que o Vasco precisava ganhar do River Plate, em Buenos Aires, para seguir na disputa do título da Libertadores. O time perdendo e, numa cobrança de falta, Juninho Pernambucano, monumental, é coroado, extemporaneamente e há milhares de quilômetros de distância: Rei de São Januário.

Outro episódio – para mim, o mais emblemático – ocorreu na virada histórica da final da Copa Mercosul de 2000. Perdendo de 3 a 0 no primeiro tempo, o Vasco virou para 4 a 3, contra o Palmeiras, em pleno Palestra Itália. Quando terminou o jogo e a euforia afônica que tomou conta dos torcedores incrédulos de ambos os lados, a imagem que ficou – até hoje – é a de Juninho batendo no peito, convidando os vascaínos a acreditarem no milagre que estava prestes a ocorrer, depois do time fazer apenas o segundo gol.

O respeito era tanto que na única chance clara de gol, de frente para a meta, com o goleiro deslocado, a metros da linha, Juninho preferiu tocar para Romário, mas antes fora interceptado. Era simplesmente a final do Mundial de Clubes da Fifa. E eu estava exatamente atrás daquele gol. Perdemos. O Maracanã ficou calado, ainda carrega esse trauma, mas mesmo assim não ouvi da boca de nenhum torcedor – desde aquele momento – nenhuma reclamação. Fala-se, no máximo, de canto de boca, como se estivéssemos cometendo uma heresia real: “Putz, se o Juninho tivesse chutado aquela bola…”. Mas, no mesmo ano, estava ele lá presente na conquista do tetracampeonato brasileiro em 2000, sempre vitorioso.

Os anos passaram e Juninho foi para a França: lá ganhou 7 títulos nacionais pelo Lyon. Mas, por aqui, a devoção só cresceu, virou música, amuleto para quando perdíamos e celebrado nas vitórias, quando ganhávamos. Havia uma esperança de que voltaria. E voltou. No primeiro jogo, em 2011, o primeiro toque na bola e, de falta – mais uma vez – gol do Juninho! Infelizmente a fase do clube não abrilhantou sua última passagem por aqui, pelo menos como jogador. Ele sempre dizia, ainda na França, sobre as propostas de outros clubes brasileiros para que retornasse ao país: “No Brasil, só jogo no Vasco”. Fazia questão de lembrar a história do pai, marinheiro, sócio do Vasco, que vinha de Recife, desembarcava no Rio e corria para São Januário.

No futebol, sabemos, é muito difícil chamarmos alguém de ídolo, ainda mais quando não se é mais criança e tomamos ciência dos homens por trás dos jogadores. No caso do Juninho, no entanto, sempre foi tarefa fácil: nunca decepcionou, no campo, nas palavras e nos atos. Um cara que podia entrevistar Ariano Suassuna e ser entrevistado pelo entrevistador de igual para igual, como de fato ocorreu. Um jogador que, mesmo mantendo o profissionalismo em altíssimo nível, nunca se tornou um ciborgue da mecânica, declarando-se amante e torcedor de um clube. Tão incrível que chega a dar pena de quem não o pode ter como ídolo.

Contando isso, me vejo ouvindo as histórias de pessoas de outras gerações no futebol e de seu ídolos, que hoje sabemos pelo nome e pelo o que fizeram, quando muito. Hoje, assistindo sua entrevista de despedida, me senti fechando um ciclo que iniciara lá naquela notinha do Jornal dos Sports, que eu fui o primeiro a saber, antes de todo mundo. Coisas que só fazem sentido no futebol e que recompensam todos os minutos que passamos comemorando ou sofrendo por ele.

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Super 8

Escrevo com os burros n’agua de uma geração exibicionista. De um tempo de gentes erráticas e incertas, mas que a indecisão é o mal maior. Minha pinimba é com a estática, com o dinamicamente imutável, com o discurso inebriante que nos leva ao mesmo lugar travestido por quinze minutos de revolução. Somos impropérios palatáveis. Jogamos o jogo até o limite do jogável, quando as regras se impõem, pedem a bola e levam pra casa. E tudo se dinamiza. Imutavelmente deixamos o jogo e começamos outro, dinâmicos, até cairmos no próximo onde nós viramos o árbitro: indeciso, inexato e conciliador. O limite é inconsciente, e talvez já o tenha se tornado subconsciente, para desespero dos analistas, algo estático, físico, repousado, recalcado e materializado na cabeça. Mesmo o tempo já não convive com a factualidade de sua existência; a morte já não é possível pelo sem-fim de opções e a vida é valor nunca antes tão abstrato: se confunde com a noção de universo. E sofremos. Sofremos por não cabermos na vida e, paradoxalmente, ressentimo-nos por mais perseguí-la.

(agosto de 2013)

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