Chau número tres

Te dejo con tu vida
tu trabajo
tu gente
con tus puestas de sol
y tus amaneceres.

Sembrando tu confianza
te dejo junto al mundo
derrotando imposibles
segura sin seguro.

Te dejo frente al mar
descifrándote sola
sin mi pregunta a ciegas
sin mi respuesta rota.

Te dejo sin mis dudas
pobres y malheridas
sin mis inmadureces
sin mi veteranía.

Pero tampoco creas
a pie juntillas todo
no creas nunca creas
este falso abandono.

Estaré donde menos
lo esperes
por ejemplo
en un árbol añoso
de oscuros cabeceos.

Estaré en un lejano
horizonte sin horas
en la huella del tacto
en tu sombra y mi sombra.

Estaré repartido
en cuatro o cinco pibes
de esos que vos mirás
y enseguida te siguen.

Y ojalá pueda estar
de tu sueño en la red
esperando tus ojos
y mirándote

(Mario Benedetti)

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Carta insular

A beleza do abstrato
não está na evitação do real
mas no aproximar da fantasia

O entreposto do sensível e o imaginável
A alegoria da cura
O impulso que origina o palpável
As formas das sombras: claras e escuras
As figuras de nuvem, de neve e de sonho
Os mitos de origem, reis idealizados e seus tronos

O abstrato: uma invenção tardia.
Antes o homem o concebera na loucura

E esta então seria
um diagnóstico precoce:
faltaria-lhe a estrutura,
para ser, não mácula
mas poesia

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O dia em que Juninho e eu estreamos pelo Vasco

Juninho JP

Era 1995. Eu era uma criança e, como muitos, apaixonado pelo futebol. Pelo futebol não: pelo Vasco. Saia da escola, no Méier, onde morava, com a fome de uma hora da tarde, mas sempre negociava alguns minutos com meu estômago, na banca, para ler os jornais afixados nas laterais. Lembro um dia parar diante daquele jornal cor-de-rosa, o Jornal dos Sports, que nesse dia tinha como matéria principal algo dos outros times do Rio. Sobre o Vasco, só um quadrinho escrito mais ou menos assim no título: “Vasco contrata Leonardo e Juninho”, e logo em seguida se explicava: “Calma torcedores, não se trata dos tetracampeões da seleção”, referindo-se ao Leonardo, que foi do São Paulo e Flamengo, e ao Juninho Paulista, que ironicamente veio depois a jogar no Vasco, “mas de jovens promessas que vieram do Sport Recife”. Li e pensei: vamos ver quem são, vai que surpreendem. E fui pra casa almoçar.

Semanas depois meu pai me levou num jogo em São Januário: era a estreia, para mim, do tal Juninho que, por haver o então famoso Juninho Paulista, virou Juninho Pernambucano para que fosse diferenciado. E era mesmo. Como se fosse hoje, lembro de estar na arquibancada sob um sol escaldante – faz muito calor em São Januário! – e ver um moleque pegar uma bola na meia esquerda e lançar perfeitamente para alguém lá na frente. A torcida aplaudiu e fez coro. Hoje pensando, tenho certeza: ali se desenhava, ainda sem dimensão da grandeza, uma paixão da torcida pela tal promessa vinda de Recife; um deslumbramento inicial. Não lembro se ganhamos ou não, mas de ter certeza de gostar do cara que o jornal disse pra ter calma. Para mim, era também a minha estreia, como torcedor. Até então, todos os jogadores que tinha visto jogar no Vasco já estavam lá no campo bem antes de eu ser um torcedor. De alguma forma, me sentia na mesma situação daquele jogador: acanhado e deslumbrado pela massa de gente que ornava a arquibancada. De outra, também me sentia portador de uma informação sigilosa: quem mais no Brasil teria lido aquele quadrinho, exposto numa banca do Méier?

Juninho, apesar de sempre ter jogado bem, não virou ídolo de uma hora para outra. Alguns anos foram necessários para a transmutação de xodó em rei. Ganhamos o Campeonato Brasileiro de 1997 e, naquele ano, Edmundo era o nome e referência. Mas as ações são simbólicas e, às vezes, o trabalho e história de muitos jogos, passes milimétricos, dedicação e gols surgem num átimo de segundo, numa jogada. E assim foi. Em 1998, eis que o Vasco precisava ganhar do River Plate, em Buenos Aires, para seguir na disputa do título da Libertadores. O time perdendo e, numa cobrança de falta, Juninho Pernambucano, monumental, é coroado, extemporaneamente e há milhares de quilômetros de distância: Rei de São Januário.

Outro episódio – para mim, o mais emblemático – ocorreu na virada histórica da final da Copa Mercosul de 2000. Perdendo de 3 a 0 no primeiro tempo, o Vasco virou para 4 a 3, contra o Palmeiras, em pleno Palestra Itália. Quando terminou o jogo e a euforia afônica que tomou conta dos torcedores incrédulos de ambos os lados, a imagem que ficou – até hoje – é a de Juninho batendo no peito, convidando os vascaínos a acreditarem no milagre que estava prestes a ocorrer, depois do time fazer apenas o segundo gol.

O respeito era tanto que na única chance clara de gol, de frente para a meta, com o goleiro deslocado, a metros da linha, Juninho preferiu tocar para Romário, mas antes fora interceptado. Era simplesmente a final do Mundial de Clubes da Fifa. E eu estava exatamente atrás daquele gol. Perdemos. O Maracanã ficou calado, ainda carrega esse trauma, mas mesmo assim não ouvi da boca de nenhum torcedor – desde aquele momento – nenhuma reclamação. Fala-se, no máximo, de canto de boca, como se estivéssemos cometendo uma heresia real: “Putz, se o Juninho tivesse chutado aquela bola…”. Mas, no mesmo ano, estava ele lá presente na conquista do tetracampeonato brasileiro em 2000, sempre vitorioso.

Os anos passaram e Juninho foi para a França: lá ganhou 7 títulos nacionais pelo Lyon. Mas, por aqui, a devoção só cresceu, virou música, amuleto para quando perdíamos e celebrado nas vitórias, quando ganhávamos. Havia uma esperança de que voltaria. E voltou. No primeiro jogo, em 2011, o primeiro toque na bola e, de falta – mais uma vez – gol do Juninho! Infelizmente a fase do clube não abrilhantou sua última passagem por aqui, pelo menos como jogador. Ele sempre dizia, ainda na França, sobre as propostas de outros clubes brasileiros para que retornasse ao país: “No Brasil, só jogo no Vasco”. Fazia questão de lembrar a história do pai, marinheiro, sócio do Vasco, que vinha de Recife, desembarcava no Rio e corria para São Januário.

No futebol, sabemos, é muito difícil chamarmos alguém de ídolo, ainda mais quando não se é mais criança e tomamos ciência dos homens por trás dos jogadores. No caso do Juninho, no entanto, sempre foi tarefa fácil: nunca decepcionou, no campo, nas palavras e nos atos. Um cara que podia entrevistar Ariano Suassuna e ser entrevistado pelo entrevistador de igual para igual, como de fato ocorreu. Um jogador que, mesmo mantendo o profissionalismo em altíssimo nível, nunca se tornou um ciborgue da mecânica, declarando-se amante e torcedor de um clube. Tão incrível que chega a dar pena de quem não o pode ter como ídolo.

Contando isso, me vejo ouvindo as histórias de pessoas de outras gerações no futebol e de seu ídolos, que hoje sabemos pelo nome e pelo o que fizeram, quando muito. Hoje, assistindo sua entrevista de despedida, me senti fechando um ciclo que iniciara lá naquela notinha do Jornal dos Sports, que eu fui o primeiro a saber, antes de todo mundo. Coisas que só fazem sentido no futebol e que recompensam todos os minutos que passamos comemorando ou sofrendo por ele.

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Super 8

Escrevo com os burros n’agua de uma geração exibicionista. De um tempo de gentes erráticas e incertas, mas que a indecisão é o mal maior. Minha pinimba é com a estática, com o dinamicamente imutável, com o discurso inebriante que nos leva ao mesmo lugar travestido por quinze minutos de revolução. Somos impropérios palatáveis. Jogamos o jogo até o limite do jogável, quando as regras se impõem, pedem a bola e levam pra casa. E tudo se dinamiza. Imutavelmente deixamos o jogo e começamos outro, dinâmicos, até cairmos no próximo onde nós viramos o árbitro: indeciso, inexato e conciliador. O limite é inconsciente, e talvez já o tenha se tornado subconsciente, para desespero dos analistas, algo estático, físico, repousado, recalcado e materializado na cabeça. Mesmo o tempo já não convive com a factualidade de sua existência; a morte já não é possível pelo sem-fim de opções e a vida é valor nunca antes tão abstrato: se confunde com a noção de universo. E sofremos. Sofremos por não cabermos na vida e, paradoxalmente, ressentimo-nos por mais perseguí-la.

(agosto de 2013)

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Happy hour

O mundo adulto é uma conversa sobre as cinco causas do câncer. Um universo tão individualista que transcende à imagem egóica da persona adentrando, numa viagem insólita, nas suas próprias células, mesmo que seja no espelho das células de outros desconhecidos. O mundo adulto é uma conversa corporativa sobre dissídio coletivo em uma empresa cerrada, sem janelas, nem sol. Pela promessa de ver a luz do dia durante um mês do ano, aceita-se a clausura de outros onze, conversando sobre o fim do mundo, doenças cardiovasculares, assassinatos em série, corrupções, a importância de beber água e chás emagrecedores, a infância colorida – seja a sua ou a dos seus filhos, que ainda desfrutam a liberdade, e sobre o mês de férias em que foi possível apreciar a luz da manhã livremente num dia de semana (talvez a coincidência da pena máxima de detenção com o tempo para a aposentadoria no Brasil não seja bem uma coincidência). O mundo adulto é aceitar as coisas como são porque elas sempre foram assim e é nessa fase que você precisa tomar maturidade de incorporar seu papel eterno, inquestionavelmente igual em todos os cantos e tempos no universo. O mundo adulto é ter 30 anos e se saber velho demais para ter uma dor na alma ou querer morar nos albergues do mundo. É rir sem vontade, subvertendo o instinto do riso. O mundo adulto é ter 20 anos e achar alguém de 25 muito velho por estar próximo da idade – o adulto de 20 já sabe – que terá de se juntar aos tristes do mundo adulto. É ter colegas há mais de dez anos. O mundo adulto é não ter sobressaltos e se contentar com as travessuras de uma moça numa casa de ilusões atemporais ou com as fantasias sobre um colega também adulto. É dar mais valor aos dicionários do que às fábulas. O mundo adulto é perder o tempo com essa leitura e se culpar por não estar lendo um manual de marketing.

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Escola tucana e a mãe global

Cena comum de hoje em dia: Zezinho e Joãozinho têm a prova idêntica na escola. É óbvio: eles colaram. A professora começa a investigar e diz que quem se acusar primeiro ganhará um ponto, mesmo tendo a prova zerada. Joãozinho levanta a mão e admite que colou e que combinou a prova com o Zezinho. Zezinho segue até o fim negando: chora, esperneia e diz que a mãe dele paga o salário da professora.

A mãe, ao saber da situação, ameaça a escola, confirma que ela paga o salário da professora e diz que se essa não for punida, ela – a mãe – tirará Zezinho da escola.

A escola, então, pensando no lucro – e não na educação – pressiona a professora que se vê na situação de pedir demissão ou aceitar o absurdo para se manter no emprego.

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Cena comum de hoje em dia: Siemens, Alstom e PSDB comandam um esquema de licitação fraudulenta no metrô paulistano desde Mário Covas. Para se beneficiar da “delação premiada”, visto que o CADE já estava descobrindo a fraude, a Siemens se acusa, admite o cartel e denuncia os políticos do PSDB por conivência. O PSDB segue até o fim negando: chora, esperneia, diz que é calúnia e que a culpa é toda do ministro do PT que o acusou indevidamente.

A Globo, ao saber da situação, ameaça o governo federal, e dá o destaque para a “denúncia” do filho tucano contra o ministro Cardozo, cobrando que o governo o demita.

Agora, teremos que ver o final dessa história: o governo, que, num misto de masoquismo e covardia, paga as contas da Globo (visto que todas as mídias dependem de verba pública), abaixará a cabeça e fará como a escola ou evocará sua dignidade, sustentando que os tucanos devam ser punidos?

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Qualquer semelhança é causal: não é mera coincidência.

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Manifestações às manifestações

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Foto: UOL

Que o Brasil está em ebulição desde que começaram as manifestações, todo mundo sabe. Isso reflete nos editoriais da velha mídia, nos posts no facebook, nos blogs de simpatizantes da esquerda e da direita. Há uma análise combinatória de interpretações. Os que se inclinam à direita, no início, começaram a demonizar o povo na rua – como sempre, porque “povo na rua” é a priori temerário para eles. Depois, quando perceberam que a carcomida classe média resolveu calçar as chinelas, pegar uma bandeira do Brasil e caminhar pela Presidente Vargas com um cartaz mandando prender mensaleiro e “acabar com a corrupção” (sic) – Opa! – até Jabor voltou atrás em menos de doze horas. Soprou uma brisa de TFP, a “marcha da família com Deus” estava de volta para acabar com o PT, a ameaça comunista e colocar ordem em tudo, com exército e Joaquim Barbosa (ex-recém-desafeto-agora-herói da Veja) no comando.

Aos poucos, também como sempre, a velha classe média que paga muito imposto, mas sonega o dobro, cansou. Cansou de caminhar à noite pelas ruas do centro. Cansou de cheirar gás lacrimongêneo da polícia e/ou ver com os próprios olhos o que é a política de repressão que tantas vezes apoiava nas favelas. Esse pessoal provou também, em poucas semanas, que falar mal da Globo não era só coisa de comunista. Fez bem ao debate essa observação in loco contrastado com o que liam no dia seguinte, ou no mesmo dia, na internet ou nos jornalões. Pela primeira vez uma organização de mídia alternativa ganhou foco, foi entrevistada por programas tradicionais e teve que se defender de ataques de todos os lados. Incomodou: está claro.

Assim, quem restou na rua foi o mesmo espírito de sempre. As bandeiras vermelhas, há pouco tão hostilizadas pelos recém-despertos, voltaram a respirar aliviadas. Incendiou uma vontade de luta que se perpetuou na casa do Cabral ou na Câmara para acompanhar a CPI dos ônibus. Quando poderíamos imaginar que em pouco tempo milicianos como Brazão e “Prof.” Uoston poderiam passar o rodo numa CPI e ganhar uma ocupação 24h popular para fiscalizá-la?

A velha imprensa, também cambaleante, se contorce para sair do dilema: como explicar para a população que ela, que sempre passou a imagem de que todo político é corrupto, possa ser contra uma ocupação que fiscaliza justamente o político? As afirmações apelam do respeito à democracia indireta (os vereadores eleitos por merecerem a representação de quem os elegeram) ao direito de ir e vir quando as passeatas bloqueiam as vias públicas. É bom lembrar que quando era o “Fora Dilma” ou 500 mil nas ruas contra a corrupção, as duas premissas eram ignoradas. Agora, segundo Noblat, o povo “voltou a dormir”. O povo, leia-se: a estirpe de seus leitores.

Algo similar ocorreu com a esquerda. Num primeiro momento, houve uma simpatia ao povo nas ruas – porque a esquerda sempre simpatizamos com isso. Depois, com a chegada dos “coxinhas”, dos fascistas e da regência da velha mídia, tentando “interpretar” as manifestações dando uma força para um interesse eleitoral, alguns ficaram assustados. Houve um momento de esfriar para “entender quem estava indo para as ruas” e o que estava sendo demandado.

A esquerda ultra governista, com o medo – até justo – de que todo esse cenário bélico revertesse contra o governo federal, chama qualquer manifestante de filhinho de papai e qualquer ato violento de vandalismo. Perderam a noção de reinvenção, de que o governo está estacionado num modelo desenvolvimentista terrível, muitas vezes precisando de uma demonstração popular de esquerda para que as vozes progressistas que ainda habitam os escalões governamentais possam se apoiar para promoverem avanços reais de esquerda.

Agora, parece que todas as causas – são muitas, como bem lembravam – sumiram. Num passe de mágica, o foco virou para os Black Blocs e para a Mídia Ninja, ou seja: já não são os motivos das manifestações, mas quem os conta e como agem. Criticam os Black Blocs por serem vândalos e a Mídia Ninja por ter “ligações escusas”. O mesmo sempre fizeram em relação aos movimentos sociais, como o MST. Não importa que a grande maioria esteja de boa-fé protestando por um direito que é mais do que justo. Importa é pegar aquela pedra (que muitas vezes já percebemos ter origens duvidosas, né P2?) que destruiu a vidraça do banco, aquele sem terra que roubou a própria organização para proveito próprio, a invasão violenta em terras produtivas etc etc etc. Para que mostrar os motivos da revolta? Importante sempre é desqualificar quem a pratica.

Importante, nesse momento, é fazer com que a energia que está nas ruas seja canalizada para um bem comum, verdadeiramente comum. Não para uma manipulação midiática eleitoreira ou um governismo a qualquer custo.

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