Hoje eu fiquei órfão na literatura

Hoje eu fiquei órfão na literatura.
 
Quando criança me mostraram como formar as palavras, juntar as letras, mas quem me ensinou a escrever foi José Saramago. Algo mudou na minha relação com a língua quando vi que o texto não precisava ter a forma dos livros, mas a forma que minhas ideias pudessem escrever. Li “O ensaio sobre a cegueira” por acaso, não lembro porquê, aos 14 anos, deparando-me com um delicioso sabor do idioma. Talvez a magia das fábulas e do universo encantador já tivesse me despertado antes, mas nunca tive a exata noção de que essa lingua era realmente a minha pátria. A partir de então nunca ousei escrever por outro código que não fosse o português. Saramago foi tão bom na arte de narrar que muitas vezes os leitores se apaixonaram pelo interlocutor e, por alguns instantes, esqueceram a história. Encanta como distribuía as palavras criando uma obra de arte, fazendo parecer que elas nunca poderiam estar dispostas de outra maneira. Por várias vezes me surgia a pergunta, não teria ele descoberto o limite da simplicidade, onde reside a poética bruta, em estado inteligível a todos, sem floreios ou retalhos linguísticos que escondem uma inabilidade?
 
De inabilidosos estamos ricos. A quantidade de textos, livros, resenhas e críticas produzidas pasteurizadas, com o ranço sem graça da falta de ideias é enorme. O português luta para não virar um arbusto onde se escondem medíocres e cínicos na arte de nada dizer. Outra inabilidade, a do ramo do sentimento, é ainda mais flagrante. Dói ao ver compatriotas destreinados no exercício de sentir, usando o português como muleta. Andam com a lingua, dirigindo a leitores intuitos escatológicos: postulam, com ares santos, o fim-do-mundo, o fim-da-história, o fim-da-vida. Pois como não seria este o fim em propagandas de ideiais tão mesquinhos? Saramago deixa o mundo em um momento que se acirram as diferenças; onde, ao menos, começam a ficar mais às claras que existem sim os não-alinhados, os que têm voz ativa contra a mesmice industrial. Ou o mundo meritocrático ousa a discordar de um Nobel Prize? Talvez o avô, analfabeto, que o próprio escritor definiu como o homem mais sábio que tinha conhecido, ninguém o ouviria. Mesmo velho, isolado numa ilha, Saramago conseguia abalar o mundo com poucas linhas num blog que mantinha na internet. Um mundo cada vez mais fascistóide na valorização do novo, do brand new, cada vez mais exaltador de uma sociedade eugenista que ainda crê nos métodos lombrosianos de interpretação do homem. Como diria Octávio Paz, nunca se valorizou tanto o novo e, contraditoriamente, nunca se envelheceu tão rápido. Quantos Saramagos precisaremos para que o senso comum assustado diariamente com o noticiário violento dos jornais tome ciência que isso tudo tem uma razão de ser? Não só a violência, mas a sua exposição.

 Saramago é a denúncia de uma falta. Agora mais do que nunca. Foi comunista a vida toda, mesmo os jornais tentando pormenorizar suas escolhas, como se ser comunista para ele fosse um distúrbio permitido, tal qual os sorrisos amarelos dos súditos para as orgias reais. E mesmo depois de morto incomodou: a Igreja, do alto de sua arrogância, teve de se curvar às críticas feitas por ele durante tanto tempo, ainda que o regalo tenha sido fruto de tantas frustrações sentidas na pele. Falou-se tanto nos dois modelos de sapatos, no fim das liberdades e diferenças no mundo preconizado pela esquerda que hoje, contraditoriamente, reina o uno, o discurso comum, o grande irmão, a moda e tudo aquilo que te obriga a estar inserido sob o risco de viver no limbo. O escritor que se foi era um bibelô, uma relíquia, que se junta a Marquez e Galeano na estante possível do mundo industrial. Mas, tenhamos a certeza, que um legado foi formado e já não estaremos solitários na defesa de uma outra construção do tempo, das relações humanas e, como êxito maior: da sociedade e de seu espelho, o homem.

 O português, o escritor, o maior que estava vivo, se vai depois de uma vida irretocável. Como forma de agradecimento, crio um blog que leva o nome de um dos seus livros.

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa” (José Saramago, em “Viagens a Portugal”)

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Uma resposta para Hoje eu fiquei órfão na literatura

  1. Vinicius disse:

    Os gigantes de espírito sempre sinalizando uma falta.
    A via crúcis da beleza, do tempo espiral e espiritual;
    o amor em silêncio, num fundo de armário, na posta-restante,
    mas sempre desabrochando.
    Duplamente órfão, ouviria ainda:
    “You may say,
    I’m a dreamer
    But I’m not the only one
    I hope some day
    You’ll join us
    And the world will be as one”
    ( a saber, o canto de um homem não de um Banco)

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