Elementais

É necessário um ato de bravura. Os escombros de um passado retilíneo são confortáveis, acomodam-se nas mobílias, nos cantos úmidos, nos caminhos invisíveis aos olhos, mas são lentamente mortais. Como num silêncio abstrato –  quando não há humanos para certificá-lo, a resignação é igualmente silenciosa. Cultiva meandros mil de explicações tácitas para simplesmente não-agir. Forma um eterno-retorno de quietações em justificativas fáceis de entender. A obra deles é simples: ouvir e esvair-se, num vômito sem digestão.

Parafraseando um mau humor criadouro, desses que dá nos loucos, dos sociáveis aos radicais, urge um ato, não necessariamente novo, mas revitalizador. A novidade não é necessariamente a querência, mas um ar fresco, energias ébrias, pés lânguidos e a excitação harmônica.

Topo a invenção da vontade. Aceito estar onde estão todos, indecididos, tolos, loucos por algo que não tem nome, mas longe da ausência de um objeto freudiano. Me vem uma ideia boba e irremediável : negar. Mas, por negar, cria-se um espaço que se ocupa pelo que acaba de ser refutado. Aceito também a câmera lenta do presente, enquanto não houver o que ocupe, que seja o próprio não, impuro, improdutivo, numa metalinguagem da negação. Ali quero estar. Junto com os cientistas de uma nova época. Mas não há patrocínio para essa ciência que admite poder não chegar a lugar nenhum. Podemos gerar mendigos, suicidas, doidos-varridos e poetas bêbados de rua chutados por neo-crianças-neo-nazistas de pais bem educados. Por outro lado, também corremos o risco de aparecer os que farão os outros se convencerem do que realmente são: loucos e suicidas.

Não comemos esse pão por cristianismo. Dividimos porque não tem outro. O pão é seco e sem graça, mas sem ele, acreditam alguns sensatos contemporâneos, a vida é perigosa e pecaminosa. E depois morrem, de uma vida sem graça, repleta de pecados mal vividos e mal confessados. Admiráveis sejam os gados novos para gerações futuras incrédulas de um passado mal aproveitado, mal engolido, mal gozado e muito, mais muito ético.

Mas não estamos aqui pelo futuro. Estamos pelo que acreditamos ser já. Aqui nos reunimos para celebrar o presente e ver que dele dispomos de todas as condições para ser o que for. Vamos fora da ciranda holográfica pós-moderna de amores líquidos: insípidos, incolores e inodoros. Por fora do carrossel luminoso sem tato; luzes, câmeras… sem ação.

Seguiremos cegos pelo meio do mato buscando de onde vem o som. E tatearemos uns aos outros até percebermos que a matéria é a mesma, sem putaria, sem pudores, sem fim. Deixemos os canais abertos.

 É preciso estar atento. Descompromissadamente atentos.

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2 respostas para Elementais

  1. Paulo disse:

    Distraídos venceremos!!

    arrebatador, mermão! BOM DEMAIS! BRAVO!!
    Estou embarcando hoje. Aquele friozim na barriga. Se aparecer por lá, me liga.
    Finalizando com Leminski:

    LER PELO NÃO LER

    Ler pelo não, quem dera!
    Em cada ausência sentir o cheiro forte
    do corpo que se foi,
    a coisa que se espera.
    Ler pelo não, além da letra,
    ver, em cada rima vera, a prima pedra,
    onde a forma perdida
    procura seus etecéteras.
    Desler, tresler, contraler,
    enlear-se nos ritmos da matéria,
    no fora, ver o dentro, no dentro, o fora,
    navegar em direção às Índias
    e descobrir a América.

    HASTA LA VITÓRIA….SEJA ELA O QUE SEJA….

  2. Priscila Cabral disse:

    Parece que 2011 chegou cheio de inspiração.
    Victor criticando o amor líquido e Paulo citando Leminski.
    Vocês estão demais!! Cotinuem assim. Os leitores agradecem.

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