Para Sancho

Ouço os gigantes chegarem tremulando o chão. O vento que seus pés produzem ao erguê-los do solo me despenteiam. O verão começa e não ardo; os pássaros cantam, eu emudeço. Os gigantes têm mil metros de amedrontamento, mas um e meio de banca. Seus pés são grandes, mas sentem cócegas, eu sei. Quando agitam a cabeça seus cabelos também se despenteiam pelas nuvens. Eu vejo mal, mas sei que estão aí, bem acima dos meus olhos. Cospem os pingos de uma chuva ácida e azul e o povo abre um guarda-chuva negro embaixo. Negro e azul combinam no desespero. Não o desespero do amarelo, mas a melancolia assentada, confortavelmente situada do azul. Enquanto isso, sinto que podem ser lágrimas em vez de cuspe. Minha tolerância ao gigante se reconforta ao saber que não só os seres humanos enfraquecem diante das nuvens. Logo um lamaçal de angústia toma conta da cidade, as crianças pisam nas poças, as moças desdenham e os homens se refugiam. As lágrimas gigantes correm fortes mas com a cautela de um bebê covarde e temeroso. Os olhos incrédulos lacrimejam sem motivo, as pessoas dão de ombros, estão todos sem entender porque choram por verem lágrimas.

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