1889: o ano que não começou

Sonham os tiranos que os trópicos vazassem em desatenção. Montados nos jegues de ouro de querências bélicas e intransigentes, bradam ferozes a destemperança violenta, travestida de boas intenções. No passado, conseguiram convencer povos famélicos – de comida ou de idéia – a montarem cegos seus bucéfalos centopéicos: cada pata independente e especialista em um tipo de tortura.

Hoje flamejam discretos nos editoriais sob uma capa pseudo-amorosa, encarnando a turma do deixa disso. Têm um poder incrível de perdoar os militares covardes (que faziam de sua impotência a própria tosca ação), mas se esquecem de conceder o mesmo indulto aos filhos do descaso, igualmente bárbaros, que ceifam também suas vítimas, descendo das favelas através de chips transistorizados implantados há cinco séculos com o condão de irem desenvolvendo aos poucos uma violência estúpida, tal qual os que defendem que os exterminem.

Não percebem os bucéfalos, ou seus guias, o princípio da causa & efeito. Leram num parágrafo de um periódico europeu – e assim foram passando em telefone-sem-fio – que é linda a cidadania.

Sopram os ventos de cheiros vermelhos de sangue, junto com o gosto vazio das bocas natimortas nunca inauguradas com um pedaço de pão. Logo fechamos os olhos e sentimos todos que é necessário muito mais do que boa vontade: é preciso toda a delicadeza do mundo.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para 1889: o ano que não começou

  1. Paulo disse:

    Viva a ré pública!

    🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s