Por favor, um advogado!

Recebi um email de um tal de Alalá repassando a seguinte mensagem de um tal de Elias, que eu publico aqui na íntegra. Alerto que todo o conteúdo é de responsabilidade dos que enviaram. Sirvo, neste caso, como mero canal de comunicação. Abaixo, o texto:

Queira me desculpar, leitor. Antes mesmo de me apresentar, tenho que confessar que eu matei. Sim, matei! E não é com pesar que afirmo tal coisa. Então, vá se acostumando porque toda vez que o senhor tiver o desprazer de ler um texto meu, saiba estar lendo um texto de um assassino. Não, não… não me olhe com essa cara de desprezo ou de espanto, sou um réu confesso, o que há de mau nisso? Todos nós cometemos delitos, ou não é? O senhor, por exemplo, quando se pega displicentemente lendo a Veja balançando positivamente a cabeça? O que acha que está fazendo? Ou então, quando sua mão desliza no controle-remoto aos domingos e inconscientemente concorda com tudo que diz a Glória Maria. Eu sei, eu sei… às vezes nós nos distraímos e perdemos o senso crítico das coisas, é normal… mas sempre?

Vamos lá: na idade de vocês eu vendia coco (a fruta) na feira. Era muito pobre e ganhava algum com essa atividade. Minha mãe era uma senhora muito frágil e viúva. Eu, então, era arrimo de família, imagina! O coco nem sempre estava fresco, eu sabia, mas o que eu podia fazer? Eu era como um minifúndio monocultor, só vendia coco, pois o meu fornecedor era baiano e só trabalhava com essa fruta, e como eu já havia adquirido uma alta dívida com ele, não poderia simplesmente parar de trabalhar. Então, você pode ir imaginando o quadro em que eu me encontrava.

Certa vez, num dia muito quente, uma senhora toda desconjuntada de andar, mas muito conjuntada de roupa, cheia de chapéu, bolsa… tipo que não se vê muito na feira, sabe?… devia estar meio estressada pelo calor, enfim! Ela me parou – é, porque eu era ambulante – e falou: “Ô rapaz (porque naquela época eu ainda era rapaz), me vê um negócio desse aí!. Eu respondi: “Coco?”, e ela: “Claro, seu preto, pois o que mais você vende?”. Pois é, esqueci de falar da minha cor: eu sou negro. Bom, eu calei a boca, baixei os olhos e retirei do saco de pano um último coco que tinha. A mulher segurou o objeto-fruta no alto, olhou de contra o sol como quem vê se é nota falsa, e tascou o coco na minha cabeça. “Tá me enganando, seu preto desgraçado! Isso aqui está estragado!”, disse ela quando o coco bateu no chão, quebrando-se em dois. Até hoje não sei direito se ele quebrou no chão, ou se já desceu quebrado da minha cabeça. O importante é que aquilo me desceu doendo mais na garganta que na cuca. Levantei do chão o maior pedaço e quando ela virou de costas eu mandei com toda a força que ainda tinha. O desgraçado do pedaço pegou exatamente na nuca da velha e matou no ato a perua. Na hora, eu ainda tentei correr de desespero. Senti um desespero de mim mesmo, nunca pensei ser capaz de fazer aquilo, juro, pode perguntar pros meus amigos.

Acordei já na prisão, de onde eu nunca saí. Fui saber depois que uns engravatados que também estavam fazendo-não-sei-o-quê na feira me bateram tanto com madeira que eu desacordei. Peguei o 121, e na forma integral, porque foi ainda qualificado. Isso é que eu me invoco: me estrupiei a vida inteira pra trabalhar, estudei pouco, e a única coisa que me qualifico é no homicídio. Vê se pode? E o infame do juiz nem pra me aliviar. Veja você, meu amigo advogado que lê isto: me enquadraram no II item, do segundo parágrafo, do artigo 121 (um-dois-um, para os íntimos), ou seja: “por motivo fútil”! Será que alguém concorda comigo que isso não foi fútil?! Fútil era ela com aqueles cordões enormes de ouro! E nem me relevaram, amigo advogado, o caso de redução de sentença que diz:

“o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção”

Não estava eu “impelido por motivo de relevante valor social e moral”? Nem de“domínio de violenta emoção”? Se os senhores nunca provaram a emoção que é levar um coco na cabeça… Agora, eu procuro alguém que me explique o porquê do safado do Toninho (o cara que me passava os cocos) não ter pego o 149 (“Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto”), parágrafo segundo, especificamente o segundo item: “por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem” ,aumentando a pena de metade. Era pra ter sido 12 anos, amigo advogado!

Pois é, senhores, eu estou preso até hoje! Quando meu amigo Jerônimo Alalá me chamou para escrever neste jornalzinho, foi porque o médico que ele me arrumou disse que eu precisava de uma atividade extra pra não enlouquecer. O senhor deve estar estranhando eu, um vendedor de coco, saber de tanta lei, né? É que na prisão, que eu já estou há 16 anos (minha pena foi de 20), eu li muita coisa e venho lendo tudo de acordo com que as pessoas deixam pra mim. Já li o Gramsci todo (o qual eu tenho muita simpatia), o Dostoievski também, o Borges, Kafka… até o Paulo Coelho que deixam aqui, eu leio.

No momento eu preciso de um bom advogado que me tire daqui. Preciso também de mais livros para seguir direitinho a orientação do médico. Mandem qualquer coisa, por favor. No final destas linhas, vai ter um e-mail que vocês podem mandar pra mim. Não sou eu que recebo, óbvio, mas meu amigo Alalá responde com meu consentimento. Esse mundo daí de fora é tão virtual que o nome é meu, mas nem sou eu que recebo. O daqui não, meus amigos, o daqui é bem real, e eu sei muito bem disso!

P.S. – Da Glória Maria, quem me conta é o Alalá…

Elias.

Nota do Jangada: por motivo de segurança, suprimimos o e-mail, mas nos comprometemos a enviar qualquer mensagem recebida ao Elias.

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