Roteiro para uma histeria ressentida (ou Uma dupla implosiva)

(câmera de fora pra dentro filma a porta de um elevador abrindo. Corte em movimento, a visão é posicionada pela perspectiva oposta e entram os personagens, um homem e uma mulher. No elevador, dez figurantes se espremem deixando o centro para os dois. A partir do segundo andar, a mulher lembra que reconhece o sujeito que entrou junto com ela.)

– Oi Afrânio!
– Como vai Sônia, tudo bem?
– Tudo bem e você?
– Bem também…

(nessa hora a câmera focaliza bem os crachás funcionais dos dois e dos outros dez)

Afrânio é um homem de meia-idade, mas ele não sabe disso, ninguém nunca contou. Sônia uma mulher, também de meia-idade – ou meio-idosa – vestida em tons que de tão formais beiram ao fúnebre.

– Soube da filha do Almeida? – questiona preocupado Afrânio
– Sim, ele falou… ela ta fazendo cursinho pra ser atriz, né?
(Silêncio, os dois se entreolham)

– É… eu já tive a idade dela, sei como é… – rompe o silêncio pela tolerância a mulher.
– … Exatamente! – Afrânio emenda as reticências, lá pelo décimo quarto andar.
– Normal a menina querer esse mundo fantasioso, de sonho. O que não é normal é o Almeida não falar nada. Eu, inclusive tive que trazer a menina pra realidade, ‘Tudo bem, linda, mas e comer? Como vai ser pra fazer isso?’.
– Ainda bem que já passamos dessa fase!

E os dois riem, cúmplices das rugas internas que ostentam por fora. O elevador chega no vigésimo segundo andar e a câmera faz um vôo panorâmico saindo do edifício, um prédio milimetricamente retangular, hermético e espelhado, refletindo pra fora todo sol que ousa lhe tocar. Hermético e espelhado: uma combinação contraditoriamente implosiva.

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Uma resposta para Roteiro para uma histeria ressentida (ou Uma dupla implosiva)

  1. Paulo disse:

    …e Sônia e Afrânio terminam seus dias num apartamento alugado em Paris, sem exatamente saberem porque Paris é ou não é mais legal do que Realengo, Baviera ou Montevidéu. À beira da morte, condição essa na qual sempre estiveram, eles definitivamente passaram da fase de sabê-lo. Provavelmente, dentro do elevador que os leva diretamente para o inferno, lá pelas bandas de Bangu em pleno verão, sentirão o mesmo orgulho que sentem os medíocres por acreditarem que por todos também o serem, a mediocridade se torna virtude.

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