Eric Hobsbawm x Anderson Silva: a luta do século XXI

 

“Por ‘tradição inventada’ entende-se um conjunto de práticas,normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas,de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente; uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado.” (Eric J. Hobsbawm em “A invenção das tradições”)

 

Hobsbawm provavelmente nunca tenha pisado na Lapa, mas nesse dia estava ali, presente, de espírito, sorrindo de canto com a expressão egocêntrica e sarcástica: “Não falei?”. Já adentrávamos a madrugada num show na Fundição Progresso que passava ao intervalo.  Eis que o vejo, velhinho, no meio do samba, me dizendo, Hoje vai ter luta. Eu, de volta, mais assustado com o que disse do que com sua presença repentina na boemia carioca devolvo, Luta? Ele me explica que de tempos em tempos o tempo vira circular e as coisas voltam. Disse, voltaram as bocas-de-sino, o Collor, as bolinhas tec-tec, o Stroessner, o vinil e agora os gladiadores.

Nem mesmo ele acabava de falar e a multidão engrossava as sobrancelhas e os punhos em riste. Olhando a multidão, vi o que viam. Era uma tela minúscula e dois homens se batiam com vontade, dessas que dá em cães virulentos na raiva, os pit bulls & cia. A cada soco certo no alvo – a cara – a multidão ia ao delírio num grito gutural. Eu tentava passar para deixar o local, mas tal qual as crianças que imitam seus ídolos futebolísticos, os homens, imitando Andersons e Belforts, fincavam os pés no chão para não deixar que porventura eu pudesse derrubá-los ao tomar a posição ao lado.

Hobsbawm viu que era inevitável passar e disse que o Estado havia coibido demais a briga nos estádios de futebol; era necessário agora que a violência contida fosse canalizada para outro lugar: o UFC. Já que não era possível fazer com que fosse desviada para os Eikes, que fosse para os Sonnens. Nesse momento, um que estava do nosso lado ouvindo a conversa replicou, Mas o Eike é um grande empresário brasileiro que representa nosso país na lista da Forbes, O Sonnen ofendeu toda a nação, Claro que ele merece apanhar. Eu consenti, claro.

Ressoou tardiamente o que Hobsbawm tinha dito sobre a volta das coisas e eu perguntei o que tinha voltado nesse caso, já que não era da tradição dessa terra os gladiadores. Ele, de pronto respondeu, Eike ué? Se não existe, ele inventa. Que nem o nacionalismo.

Sábio esse Hobsbawm.

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