“Político é tudo igual” ou Manga com leite mata

“Político é tudo igual!”

Quantas vezes você já não ouviu (se é que já não cometeu) essa frase? Como às vezes fica difícil se desprender de certezas intransponíveis, que tal pensar na seguinte frase: “brasileiro é tudo igual”. Você concorda? Se concorda, o trabalho é mais difícil e talvez seja necessária antes uma visita lá na professorinha de ciências sociais da 5ª série do extinto primeiro grau.

Se não concorda, lembrará (bem) que num país como o Brasil, de dimensões continentais, de culturas tão distintas, muitas vezes a única coisa que nos une é a língua. Difícil imaginar que “brasileiro é tudo igual” quando temos na cabeça a imagem de um pernambucano do sertão e a de um agricultor do Rio Grande do Sul.

Não precisa ser em termos geográficos. Lançando mão – infelizmente – de uma característica tão nossa quanto o futebol, o samba e o maracatu, lembramos que a “desigualdade” é uma rainha extemporânea desse nosso país constitucionalista. Então, imaginaríamos que “brasileiro é tudo igual” quando temos em mente um mendigo paulistano e o Eike Batista, dotado de nome e sobrenome próprios, por exemplo?

E de onde vêm os políticos deste país que não seja do Brasil? Como poderiam ser todos os políticos iguais se só pela procedência deles a afirmação já seria absurda? Temos políticos que representam Eikes, outros que representam os retirantes (muito menos, é claro) e políticos que representam os agricultores. É só dar uma analisada na Câmara dos Deputados, por exemplo, e se deparar com as inúmeras distinções de sotaques, formações e interesses. É uma babel. E que bom que seja.

Daí vem outra “tese” defendida geralmente pelos mesmos partidários do “Político é tudo igual”: a de que o “poder corrompe”, e é irremediável. O quanto já não se ouviu que “não adianta, a pessoa pode até ter boas intenções, mas chegando lá…”?

Seria crível que mais de 57.000 vereadores, mais de 5.000 prefeitos, mais de 1.000 deputados estaduais, 513 deputados federais e 81 senadores sejam todos iguais? E todos corrompidos?

O curioso é que quando levamos este mesmo critério para a iniciativa privada, esses chavões repetidos aos nove ventos não existem. O empresário brasileiro paga um dos salários mínimos mais baixos do mundo (é o mais baixo do Mercosul) e, contrastando com os grandes lucros auferidos – aí já excluindo a desculpa de sempre, os impostos – faz do Brasil um dos mais desiguais do mundo.

Para ser claro: tudo o que é da esfera pública é digna de escândalos midiáticos, enquanto a possibilidade de um empresário lucrar R$ 1.000.000,00 e pagar a seus funcionários uma mariola por mês é vista como “normal, ele mereceu”. Isso sem contar os imensos e conhecidos esquemas de sonegação de impostos e, no caso de empresários estrangeiros aqui estabelecidos, de remessas ilegais de lucros.

Leia-se outro chavão: “imposto é público e merece ser desviado”. O mais curioso é que nas poucas vezes em que esse disparate – ou desigualdade – é digno de atenção, a culpa é do… político! Ele que deveria fiscalizar e permitir que o trabalhador tivesse condições dignas…

Entenda a cantilena: primeiro dizem que todo político é igual e corrupto. Quando há um problema (de ordem econômica, logo majoritariamente privada) a culpa não é a da classe empresarial: é do político, do público.

Você conhece a história de que manga com leite faz a pessoa ter um piripaque e morrer instantaneamente? Essa história era contada aos escravos e, de tão repetida, virou verdade no imaginário coletivo. O objetivo era que os escravos não tomassem o leite produzido nas fazendas e ficassem com as mangas, tão abundantes pelos campos. Até hoje a ideia resiste e há quem não coloque um pingo de leite na boca depois de chupar uma manga.

Venderam uma história de que todos os políticos são iguais para que nós, escravos, acreditemos que boa mesmo é a iniciativa privada; leia-se: os empresários. Os políticos só servem para atrasar o país. Não devemos tocar na política: ela é proibida, assim como era mortal a mistura do leite com a manga.

Enquanto acreditarmos nesta anedota, continuarão os Eikes & cia. a tomar todo o leite e a pagar a mesma manga carlotinha aos trabalhadores do Brasil. É necessário descriminalizar a política e ocupar o espaço que nos é de direito público: o Estado.

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2 respostas para “Político é tudo igual” ou Manga com leite mata

  1. Sou muito sua fã. rs
    Adorei o texto. Esse lance da manga com leite é uma metáfora muito boa pra explicar versões sem escrúpulos que existem pelo Brasil, né?

  2. QUINCAS disse:

    Gostei. Também acho que esse discurso de que são todos iguais só serve para despolitizar a política e que devemos usar este espaço para das eleições aprofundar a necessidade da participação popular na política.
    Agora, não penso nas eleições como espaço de transformação e que podemos realmente mudar a nossa realidade nesse espaço. É só ver o programa eleitoral para perceber as fortunas gastas nas campanhas etc.
    Desses “mais de 57.000 vereadores, mais de 5.000 prefeitos, mais de 1.000 deputados estaduais, 513 deputados federais e 81 senadores”, quantos representam os agricultores e os retirantes?

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