Faisões

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Uma ação de marketing. Uma empresa querendo difundir suas novas tecnologias de produção de carnes. Ofereceram um banquete de faisões. No meio da rua, executivos de calças de brim e cult-bacaninhas de camisa xadrez meio aberta se revezavam devorando as asas chamuscadas, como peças de galeto. Num espetáculo de selvageria, talvez a única que foram capazes de assumir ao meio-dia numa quarta-feira, sorriam uns para os outros cúmplices do crime que cometiam ao superego. As cabeças dos faisões eram disputadas sem cerimônia, mastigavam com desejo os olhos de gelatina e o show de cores pelas plumas que choviam de suas mãos pareciam flores despetaladas na primavera.

Um ou outro se assustava com a ameaça da polícia ao redor, mas os guardas consentiam atestando a legalidade e hombridade do ato. Nobreza, sangue e violência, quando dignos, devem ser aplaudidos, sentem os policiais. Estavam ali para protegê-los. O calor que exalava menos do sol e mais do concreto cinza que cobre a paisagem mantinha a carne morna e ativava o sabor da fúria dos faisões que tentavam fugir quando abatidos. Era um gosto salgado e amargo, numa textura viscosa e escorregadia, como carne de lichia; e o sangue feito de uma matéria viva, vermelha, um vermelho vivo de muito oxigênio.

Parecia que nem sequer sentiam o gosto, o ato de deglutir era mais veloz do que o de mastigar. Refugiavam-se à sombra para secretamente expressar a mais completa feição de satisfação, separando entre os dentes a carne dos ossos e, entre os olhos curiosos, o prazer da privacidade.

Sem dúvida, não era gostoso. Atraía a sensação de digerir e só. A todos, tranquilizava sentir que os pássaros foram domesticados, criados e mortos. Não precisaram caçá-los dentro de seu habitat, nem conviver com a dor imaginária de suas projeções maternas das crias ceifadas precocemente. Foram cuidadosamente submetidos a uma vida tediosa, inútil e sem graça. Nenhum faisão conviveu com outro faisão. A solidão radical foi o que durou durante toda a existência. Matariam-se, caso possível. Morreram felizes, por uma psicologia reversa e necessária.

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