Dodô: um reacionário descolado

Um dia disseram a Dodô que o futuro era perigoso e a tudo deveria estar atento. Isso foi, talvez, aos treze anos. Hoje, aos trinta e muito, não que o mundo tenha se tornado substancialmente mais nocivo, mas a questão é de tempo, não de circunstância: o futuro havia se tornado presente.

Como “disseram”, e o verbo na terceira do plural é indeterminado, opera sobre Dodô uma força coerciva sem nome nem face. O resultado é quase uma profecia ou um dogma católico. Poderia ter sido seu pai, mesmo que hoje não se lembrasse de ter avisado o filho de tão importante revelação; poderia ter sido num programa de televisão ou num filme sob a escuridão profunda do cinema.

O fato é que hoje, aos quase quarenta, já consciente de (quase) tudo o que lhe dizem, aquela verdade, há tanto dita, já não possui interlocutor para se contrapor ou dialogar. Como aquela música que você sempre cantou errado sem saber. Um dia, cantarolando inconscientemente, flagra a si mesmo dizendo algo sem sentido que – muito provável – veio no bojo de suas formulações de criança, das quais nunca se questionou. É o mesmo que encontrar um bilhetinho dobrado da menina que foi apaixonado quando muito novo e, de repente, se deparar com um pedaço de papel e uma letra tremida: sopra uma brisa rápida que faz relembrar o nervoso que aquilo provocava, mas tão logo é dissipado pelo presente.

A diferença do bilhetinho é que você sabe o que, quem e por qual intenção escreveu: aquela menina era apaixonada por você. Talvez ainda o seja, quem sabe. Mas quem disse que o mundo iria ser violento? E por qual intenção disseram? Disso Dodô não se lembra, mas sente; e sente que é preciso sentir. Mais: é preciso se armar. Se armar em punhais e verbos. Mas contra quem? Se não lembra nem do passado, de quem o fez sentir medo, muito menos desconfia do futuro: contra quem lutar?

Dodô, que já não tinha clareza do passado, teme o futuro e se aquartela no presente. Como um refugiado do mundo, protege-se em muros de quinze metros erguidos contra o inesperado e só se revela – e se informa – através do computador. Dodô não é um senhor de aparências reacionárias, como você deve estar pensando. Não, o estereótipo mudou. Esse senhor de barbas brancas, óculos meio-caído pelo nariz e de olhar blasé-arrogante já foi combinado por outras estirpes.

Dodô é um homem sorridente, freqüenta a boemia carioca, toca violão, fuma maconha, tem mestrado, usa barba rala e se diz libertário. Costuma ter desconfiança de tudo e todos, mesmo que não demonstre. Mas isso é lógico – e você já deve ter percebido: quem vive com medo não confia em nada, nem ninguém, e acha otário qualquer um que faça o contrário.

Vive rodeado de meninas descoladas, sandalinhas havaiannas e pouca sensibilidade social. É mergulhador profissional de um oceano niilista repleto de conceitos inconclusos e superficiais. Na manga, sempre uma música que cai bem no grupo. No fundo, sempre uma vontade de se tornar o alter ego de seu medo e, assim, conseguir se livrar de sentir a última coisa que ainda realmente sente.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s