A quem interessa o discurso anticorrupção?

Quando vejo pessoas nas passeatas, muito novas, bradando contra os partidos políticos e depredando sedes do governo me chama a atenção sobre o que indiretamente estão lutando contra: ambos, partidos políticos e sedes do governo são formas democráticas de representação popular. Parte é culpa dos governos do PT que há mais de 10 anos “esqueceu” de politizar o debate, de não realizar plebiscitos para todas as emendas constitucionais (como acontece na Venezuela! Sim, aquela Venezuela “ditatorial”), de rever nossa lei de mídia (ainda hoje concentrada nas mãos das mesmas famílias que dominaram a opinião pública na ditadura militar) enfim, de escutar o que uma parcela progressista da população estava clamando.

Hoje, temos uma grande parte da população, com 20 anos, que nunca foi às ruas, nunca foi chamada a defender o Estado, como nas privatizações dos anos 90, que não lutou, brigou com amigos, famílias, chorou e se emocionou quando tiramos da presidência um modelo que faliu todos os países da América Latina e do mundo: o neoliberalismo. A luta não é personalista; não se trata de “FHC é um canalha” ou “Alckmin é da Opus Dei”, trata-se de uma disputa ideológica. É importante frisar que quando bradam contra o Estado, alguns fantasmas se divertem e dizem “Sim! É isso que nós sempre quisemos! Lembra, nós vendemos (quase) tudo nos anos 90 porque acreditávamos nisso”. E a mídia, essa mesma mídia que o PT não combateu, é declaradamente a favor desse neoliberalismo, basta ler os editoriais do Globo, da Folha, do Estadão… da Veja nem se fala. Quem ainda diz que a mídia apóia o PT, me desculpe, é porque não passou os últimos 15 anos lendo todos os jornais, editoriais, analisando a forma desigual com que sempre trataram o PT e o PSDB e vendo as análises mundiais sobre a cobertura de mídia no país. Ou pior: não sabe ler nas entrelinhas.

Está claro que desde a mudança repentina de opinião da Grande Mídia, encabeçada pelo “Eu errei” do Arnaldo Jabor, estão tentando se apropriar do movimento espontâneo da mesma forma que reclamam dos partidos estarem aparelhando as passeatas. Foram eles, a Grande Mídia, os grandes propagandistas do “ódio à política e aos políticos” e não, como deveria ser feito por uma mídia alternativa e progressista: uma proposta à discussão do que realmente assola o país: a espúria dependência de ganâncias empresárias, um modelo de desenvolvimento meritocrata e concentrador de renda e um estilo de vida que escraviza e adoece milhões em contraposição da regalia de alguns. Isso eles não querem discutir. Preferem atacar um monstro genérico chamado corrupção, que é vendido com a marca do PT. Claro, é cômodo e eles têm um objetivo: eleitoral.

Com todos os problemas, os governos do PT diminuíram a desigualdade social no país e isso é inegável. E não foi, como muitos dizem, porque o FHC “preparou o terreno” não. As melhorias sociais, especialmente nas camadas pobres, vieram dos programas de distribuição de renda (sim, Bolsa Família!) que o PSDB sempre se recusou a fazer. Ou melhor: recusava-se, até perceber que isso lhe tiraria votos e mudar o discurso na frente das câmeras – porque por detrás nós sabemos o que os seus membros dizem sobre isso. Abaixo está o resultado do PNUD, organizado pela ONU, sobre os impactos do Bolsa Família no país (http://www.pnud.org.br/Noticia.aspx?id=3632).

Gostaria muito de atacar o governo federal ferozmente pelos motivos que disse acima e dos quais o PT não conseguiu se livrar, como a associação com as parcelas mais podres da sociedade (de megaempresários concentradores de renda a bancadas evangélicas), mas quando vejo quem o ataca (as figuras míticas do Pagador de Impostos de Oliveira e o Cidadão de Bem de Freitas etc.), que estão se lixando pra pobre, negro e favelado, mas interessado nas suas férias na Europa com o real forte, me pego na árdua tarefa de defender o governo para não entregar o que conseguimos das conquistas sociais nas mãos dos canalhas de sempre.

É só porque não temos uma população que cobra de fato as ganâncias de grupos privados (como ocorreu até no Occupy Wall Street!) e que não se posiciona claramente a favor do financiamento público das campanhas, por tudo isso que temos partidos que precisam se associar ao podre para poder se eleger e governar. Aí está a gênese dos “caixas-dois” travestidos ou não de “mensalões” etc. É preciso pagar a base aliada para simplesmente “ser aliada”. Será que se o Lula filtrasse o lucro dos bancos, revogasse as concessões de TV dos coronéis do Nordeste e cortasse as remessas de lucros internacionais o povo iria pra rua defender essa política quando estivessem todos – velha mídia , políticos espúrios e empresários-parasitas – pedindo a cabeça dele? Podemos dizer que ele não queria revolucionar tão a fundo, mas perguntamos: e o povo? Estariam todos de acordos com políticas que radicalizassem o nervo da estrutura capitalista?

Aí alguns retrucam (e com razão): “mas tanto o PSDB, quanto o PT representam a velha política, precisamos de algo novo…”. Apesar das diferenças de maior participação do Estado (PT) e estado-mínimo (PSDB), há uma razão nessa afirmação! Mas então? Quem ocupará o poder? A Marina Silva? Espero profundamente que não pois representa uma pauta mais-do-que conservadora e longe de um lastro popular, que, inegavelmente, o PT teve durante anos. E aí volta outra vez: se a questão é radical e de abolir os partidos, quem comandará o país? Uma revolução anárquica ou… o Exército Brasileiro? Para qual estaríamos preparados?

Não precisou passar muito tempo para que os velhos atores dessem as caras e mostrassem o óbvio. É um Merval Pereira (http://oglobo.globo.com/blogs/blogdomerval/posts/2013/06/19/corrupcao-o-foco-500521.asp) rotulando (olha aí a apropriação!) que o movimento é contra a “corrupção” (leia-se: o PT); ou um Alexandre Garcia (http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/videos/t/edicoes/v/a-voz-das-ruas-e-eloquente-diz-alexandre-garcia/2642651/) usando como exemplo a “A Marcha da Família com Deus pela Liberdade” como exemplo comparativo com essas manifestações de 2013 (lembremos que foi essa manifestação o estopim do golpe civil-militar de 1964).

Eles não estão interessados por uma pauta progressista. É importante lembrar que apesar de as redes sociais terem muita força na classe média, é através da Globo que o movimento se “oficializa” inconscientemente. Quem estava na Cinelândia à noite no dia 17/06, viu a multidão correndo para as TVs do Amarelinho gritar e se reconhecer no meio das imagens do Jornal Nacional. Normal: legal ver que o movimento ganhou forças.

Mas é imperioso e imprescindível que assim como as reivindicações contra o aumento da passagem de ônibus, o dinheiro gasto na Copa e o custo de vida exorbitante no país que também o marco regulatório da mídia entre em pauta para ser um aviso claro de: “Ei Rede Globo, não somos manipulados e a briga é com você também! Não venha me aparecer de amiguinho”.

Se é pra acreditar no afago que os editoriais estão nos fazendo do tipo: “são jovens que não aceitam uma solução simplória como bandeira”, então vamos discutir realmente a fundo TODOS os problemas possíveis do país. Será que essa mídia está interessada?

Caso contrário, se essa briga não acontecer nesse momento, corre-se o risco de segurarmos a bandeira (que ainda não temos claramente) costurada pelo William Bonner e contraditoriamente abraçarmos o passado.

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