Pequena e grande políticas. Pequena e grande corrupções.

A política é a arte do possível.

Quando penso nessa frase, penso na política partidária – na chamada pequena política, e não na grande política, que é aquela praticada no dia a dia, nos pequenos atos ou nas grandes iniciativas que tentam mudar a estrutura e os valores da sociedade.

Se fosse uma música, a pequena política seria o improviso sobre a harmonia; os pequenos arranjos sobre a estrutura já consolidada. A grande política seria a própria revolução harmônica, uma nova estruturação, outro campo harmônico.

Quando exigimos dos partidos políticos que façam alguma coisa, exigimos dentro da pequena política. O problema, como muitos do povo se sentem – ou realmente são – alijados da discussão política, fundam em suas consciências uma espécie de “política única”, aquela representada pelas estruturas: partidos, sindicatos, leis, congressos etc. E só.

Talvez isso explique o porquê de muitos que exigem o fim do Congresso Nacional ou dos partidos, ou que achem que o “Brasil não tem jeito”, continuarem a sonegar impostos e a subornar guardas. Para eles, ética mesmo tem que ter o político, uma figura mítica, que representa tudo o que ele (o mesmo que pede o fim da corrupção e malandramente fura a fila no cinema) espera para o conceito “política”.

No caso do Brasil, temos uma pequena política particular. Um país há séculos crivado por uma desigualdade brutal, uma das maiores do mundo, que ainda há coronéis nos interiores do país, que só há pouco tempo discute – e sangra na pele – a separação entre o público e o privado. Sarney não foi posto onde está por um demônio; Antonio Carlos Magalhães não era um encosto de oferenda evocado pelos que queriam seu apoio.

É bom lembrarmos que, apesar dos adjetivos, tanto a pequena quanto a grande políticas são necessárias para a construção da sociedade. O PT, por exemplo, surgiu como partido de oposição, eivado de grande política e sonhos de transformação, mas quando tomou parte do que foi de fato criado – a pequena política – teve que começar a “sujar” as mãos um dia quando percebeu que ser oposição sempre era muito encantador para o ego, mas pouco edificante para a sociedade. Como ser governo e fazer política com o que se tem hoje – Sarneys, Renans e Malufs, sendo um partido político que tem um objetivo claro e pragmático?

O PT virou governo por conta dessas alianças. Enquanto mantinha o discurso próximo ao PSTU seria para sempre uma imaculada oposição sem, no entanto, ter a oportunidade de criar inegáveis melhorias na sociedade, como uma distribuição de renda um pouco mais justa, programas assistenciais necessários para matar a fome de grande parte do país e, de alguma forma, barrar a venda irresponsável do Estado levada a cabo pelo PSDB.

A corrupção? Assim como a política, temos a grande corrupção e a pequena corrupção. A pequena corrupção é essa das obras superfaturadas, dos desvios de verbas etc. A grande corrupção é essa que muitas vezes não é percebida como tal, como os astronômicos lucros dos bancos, as remessas internacionais, a possibilidade de um empresário lucrar “x” com seu empregado e pagar a ele “x/1000” etc. Essas são as que criam uma sociedade carrancuda, doente, violenta, desigual por essência. Sem a grande corrupção, a pequena corrupção seria muito mais difícil de ocorrer pois teríamos uma sociedade com outros valores, menos competitiva e menos histérica. Combater a pequena corrupção sem focar na grande é o mesmo que plantar árvore para neutralizar a emissão de carbono ou como tomar xarope pra tosse na gripe: ajuda, mas não trata a causa e não a impede de voltar.

Não existe partido para a grande política, já que seria uma contradição entre termos. Se é partido, é para estar situado na pequena política. Muito me assusta Marina Silva e suas redes, que não se assumem partidos, mas que deixam abertas as possibilidades de empreiteiras e bancos financiarem sua campanha – assim como aconteceu em 2010 quando Andrade Gutierrez, Camargo Correia e a Suzano injetaram mais de R$ 2,5 milhões para a então “candidata verde”. Bom lembrar que dentre os financiadores da Rede está uma representante do Banco Itaú. Nova política assim? Sem dizer que da última vez que tivemos um presidente eleito sem base partidária, vindo de um partido fantasma, vivemos um caos democrático: o caso Collor.

Devemos caminhar não só nos atalhos da pequena política, mas substancialmente criar um novo campo harmônico, uma nova estrutura dentro da grande política para que, no futuro, não precisemos descolar tanto pequena x grande política da realidade brasileira.

Só um lembrete: pequena e grande política são termos construídos por Antonio Gramsci, pensador italiano que morreu nas mãos de Mussolini, ditador que pregava, dentre tantas coisas, a dissolução de todos os partidos para a edificação do fascismo na Itália.

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