PT or not PT

Um pequeno estudo antropológico/sociológico da relação de alguns grupos sociais brasileiros com o Partido dos Trabalhadores:

• O coxinha raivoso: aquele tipo que sempre detestou a imagem do Lula; tem ódio (mesmo que sem admitir) por ser nordestino, acha que ele fala feio, chama de analfabeto, nove-dedos etc. Esse tipo tem nojo de pobre e, apesar de não ter lido um parágrafo sobre nada de ciências sociais, se acha culto em política por se informar – quando muito – através das colunas do Merval Pereira. Votou no Collor em 1989, acreditou que o sequestro do Abilio Diniz foi comandado pelo PT, adorou quando o FHC vendeu a Vale a preço de banana, nem se incomodou com os R$ 200 mil dado a cada deputado para votar a emenda da reeleição e acha que o mensalão (que também até hoje não entendeu, não quis entender e tem raiva de quem discute) foi o crime dos últimos séculos, superior ao massacre de Auschwitz. Esse, no fundo, está se lixando para política social, acha que direitos humanos é coisa de bandido e que pobre é pobre porque merece. Concentram-se majoritariamente entre os eleitores do PSDB, PPS, DEM (o que sobrou) e PP; destacam-se proeminentes jornalistas como o próprio Merval, Noblat, Demétrio Magnoli, Diogo Mainardi, Olavo de Carvalho, Arnaldo Jabor, Rodrigo Constantino e todo o Instituto Milenium. Esses não merecem o mínimo crédito.

• O neoliberal convicto: esse não tem, ou não tinha, a raiva “de classe” do PT. São poucos, mas influentes pela posição que ocupam, e consideram que o modelo econômico bom mesmo é aquele empregado na Argentina de Menem – que quase destruiu o país – ou na Europa pré-crise… responsável pela própria crise. São convictos que o mercado regula a economia e que isso ajuda a todos da população, mesmo assistindo a maior economia do mundo, dos EUA, que sempre optou por esse modelo, sofrer um colapso social com uma pobreza e uma concentração de renda triplicada nos últimos 30 anos. Acham que Bolsa Família é uma besteira e que, com o tempo, o bolo do crescimento econômico, puxado somente pelas empresas de boa índole, irá ser repartido para os pobres. Os que sofrem hoje em dia devem ter em mente que são frutos de um Estado ruim e vendem a a esperança que seus descendentes irão se beneficiar um dia, quem sabe, da melhoria da economia. Claro: são todos de classe média alta. Ah sim, odeiam os impostos… mas não ligam para a sonegação e para o crime de remessa ilegais de lucros internacionais. Esses são os típicos eleitores puro-sangue do PSDB; destacam-se também muitos jornalistas: Carlos Alberto Sardenberg, Heródoto Barbeiro, Miriam Leitão, George Vidor etc.

• O trabalhista: figura ainda existente no cenário nacional, o trabalhista é herdeiro de Leonel Brizola, do antigo PDT e do legado de Getúlio Vargas. Esses têm um problema de origem com o PT pois disputaram, dentro do imaginário do país, a representação de quem seria o nome – e estilo – da esquerda brasileira ao fim da ditadura militar. Muitos deles detestam, por questões históricas, os barbudos do PT. Nesse caso, a culpa é mútua: por não terem sabido aproveitar as maiores sintonias que tinham entre si: a defesa do Estado e a crítica ao monopólio da mídia.

• O comunista-surrealista de vanguarda: figura mítica desde os movimentos estudantis, esse tipo considera que o Brasil está à beira de uma revolução popular e que a massa está disposta a pegar em armas para dizimar os empresários que exploram o povo. Costumam confiar na tática de guerra de “quanto pior melhor” para forçar o povo a derrubar tudo, sem se importarem que essa infantaria já sofre do “pior” há muitos anos e que, com a derrubada do PT e do Estado, o risco do povo sofrer ainda mais em mãos neoliberais é muito maior. Fazem parte desse grupo: simpatizantes e eleitores do PSTU e PCO, e parte do PSOL.

• O super-lulista: esse desvincula o partido à pessoa do Lula. Alguns chegam a se dizer anti-petistas, mas adoram o ex-presidente. Fruto de um personalismo histórico do país, o super-lulista tem raízes no getulismo. A maior parte, é claro, aposta no PT como uma opção de mudança, mas não o critica suficientemente e referenda toda e qualquer opção política. Acaba fazendo mal ao não cobrar a postura mais de esquerda que o PT deveria tomar. Fazem parte desse grupo os setores mais “religiosos” da esquerda, os românticos da esquerda e parcela da população mais pobre que enxerga na pessoa do Lula todo o mérito dos ganhos sociais.

• O superético imaculado: esse acha que a política é feita de ursinhos carinhosos e que o PT seria o super partido que viria acabar com os maus de Krypton, convencer os coronéis do interior do país a entrarem num pacto de justiça social e, sem o apoio desses caras que comandam o país desde tempos imemoriais, iria acabar com a corrupção do Brasil. Esse acha o PT a mesma farsa, que se vendeu igual aos outros e nunca considerou a ameaça zumbi dos coxinhas raivosos. Compartilham este tipo muitos eleitores, e filiados, do PSOL, da Marina Silva, Joaquim Barbosa (?) e os descrentes na política. A este tipo, o PT compartilha a culpa: um partido que gostava de se vender como o supra sumo da moral e da ética, mesmo tendo percebido (claro, são diversas correntes internas) que para se chegar ao poder e realizar as melhorias sociais (de fato), teria que “fazer o jogo”. Por isso, não poderia continuar a fazer este tipo de propaganda irresponsável e irreal, com o risco de afastar os superéticos imaculados da vida política do país, abrindo espaço para as soluções antidemocráticas: militares ou judicialescas. Parte dos superéticos, também, sempre torceram o nariz para o PT e o enxergaram próximo – mas com menos raiva – ao que os coxinhas raivosos o faziam. Em 2002, com o desgaste do modelo tucano, resolveram “dar uma chance” ao Lula porque, segundo muitos deles, “iriam ver então o que eles – os petistas – poderiam fazer, já que sempre falaram muito”. Esses têm mais raiva do PT pelo mensalão do que pelo modelo econômico de desenvolvimento que o governo apostou (até porque, muitas vezes, eles concordam com isso).

• Os que acham que o PT foi longe demais. Esses odeiam, politicamente, o coxinha raivoso e o neoliberal convicto; têm simpatia pelos superéticos imaculados, pelos trabalhistas, pelos super-lulistas e pelos comunistas-surrealistas de vanguarda, mas entendem que para se entrar no jogo da política partidária – e fazer algo que vá fortalecer o Estado, o funcionalismo público e a camada mais ferrada da população – há de se fazer acordos e pagar por eles (muitas vezes, nos dois sentidos). Consideram os governos Lula e Dilma um avanço em relação aos governos Collor e FHC, principalmente no campo social e na política internacional (especialmente nos dois governos Lula). Acham, no entanto, que mesmo assim o PT fez alianças que foram longe demais e ousou pouco no campo econômico. Condena os governos petistas principalmente por um modelo desenvolvimentista de grandes conglomerados nacionais, uma fraca intervenção na economia, por uma não discussão franca sobre os meios de comunicação ainda mais concentrados do que a renda nacional na mão de meia dúzia de famílias e pelo parco posicionamento progressista sobre temas polemicos, como aborto, direitos LGBT, drogas etc. Fazem parte deste grupo, além do autor, pequena parte do PSOL e de outros partidos de esquerda. A esse grupo, o PT não tem resposta e merece ser bombardeado diariamente até que tome uma posição digna de sua história de esquerda. Tem esse compromisso por ser o único partido atualmente capaz de aglutinar esses posicionamentos, e ter um lastro social forte, e ainda assim ter se acovardado quando foi possível fazer. Mas mesmo assim, dentro da política partidária que temos, não veem outra alternativa possível e execram qualquer ensaio de volta dos tucanos no poder e, claro, afastam a dupla superética-imaculada Marina Silva & Banco Itaú como “nova política”. Aos que achamos que o PT foi longe demais, vale a maxima: “tirar o PT do poder? Claro! Só se for por algo mais à esquerda. Do contrario, iremos para a rua dar o sangue para mantê-los no poder”.

Em qual deles você se encontra?

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2 respostas para PT or not PT

  1. Ivaldo Santos disse:

    Se é válido mantê-los no poder a custa de sangue, devo presumir que também é válido destituí-los sob sangue…

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