Manifestações às manifestações

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Foto: UOL

Que o Brasil está em ebulição desde que começaram as manifestações, todo mundo sabe. Isso reflete nos editoriais da velha mídia, nos posts no facebook, nos blogs de simpatizantes da esquerda e da direita. Há uma análise combinatória de interpretações. Os que se inclinam à direita, no início, começaram a demonizar o povo na rua – como sempre, porque “povo na rua” é a priori temerário para eles. Depois, quando perceberam que a carcomida classe média resolveu calçar as chinelas, pegar uma bandeira do Brasil e caminhar pela Presidente Vargas com um cartaz mandando prender mensaleiro e “acabar com a corrupção” (sic) – Opa! – até Jabor voltou atrás em menos de doze horas. Soprou uma brisa de TFP, a “marcha da família com Deus” estava de volta para acabar com o PT, a ameaça comunista e colocar ordem em tudo, com exército e Joaquim Barbosa (ex-recém-desafeto-agora-herói da Veja) no comando.

Aos poucos, também como sempre, a velha classe média que paga muito imposto, mas sonega o dobro, cansou. Cansou de caminhar à noite pelas ruas do centro. Cansou de cheirar gás lacrimongêneo da polícia e/ou ver com os próprios olhos o que é a política de repressão que tantas vezes apoiava nas favelas. Esse pessoal provou também, em poucas semanas, que falar mal da Globo não era só coisa de comunista. Fez bem ao debate essa observação in loco contrastado com o que liam no dia seguinte, ou no mesmo dia, na internet ou nos jornalões. Pela primeira vez uma organização de mídia alternativa ganhou foco, foi entrevistada por programas tradicionais e teve que se defender de ataques de todos os lados. Incomodou: está claro.

Assim, quem restou na rua foi o mesmo espírito de sempre. As bandeiras vermelhas, há pouco tão hostilizadas pelos recém-despertos, voltaram a respirar aliviadas. Incendiou uma vontade de luta que se perpetuou na casa do Cabral ou na Câmara para acompanhar a CPI dos ônibus. Quando poderíamos imaginar que em pouco tempo milicianos como Brazão e “Prof.” Uoston poderiam passar o rodo numa CPI e ganhar uma ocupação 24h popular para fiscalizá-la?

A velha imprensa, também cambaleante, se contorce para sair do dilema: como explicar para a população que ela, que sempre passou a imagem de que todo político é corrupto, possa ser contra uma ocupação que fiscaliza justamente o político? As afirmações apelam do respeito à democracia indireta (os vereadores eleitos por merecerem a representação de quem os elegeram) ao direito de ir e vir quando as passeatas bloqueiam as vias públicas. É bom lembrar que quando era o “Fora Dilma” ou 500 mil nas ruas contra a corrupção, as duas premissas eram ignoradas. Agora, segundo Noblat, o povo “voltou a dormir”. O povo, leia-se: a estirpe de seus leitores.

Algo similar ocorreu com a esquerda. Num primeiro momento, houve uma simpatia ao povo nas ruas – porque a esquerda sempre simpatizamos com isso. Depois, com a chegada dos “coxinhas”, dos fascistas e da regência da velha mídia, tentando “interpretar” as manifestações dando uma força para um interesse eleitoral, alguns ficaram assustados. Houve um momento de esfriar para “entender quem estava indo para as ruas” e o que estava sendo demandado.

A esquerda ultra governista, com o medo – até justo – de que todo esse cenário bélico revertesse contra o governo federal, chama qualquer manifestante de filhinho de papai e qualquer ato violento de vandalismo. Perderam a noção de reinvenção, de que o governo está estacionado num modelo desenvolvimentista terrível, muitas vezes precisando de uma demonstração popular de esquerda para que as vozes progressistas que ainda habitam os escalões governamentais possam se apoiar para promoverem avanços reais de esquerda.

Agora, parece que todas as causas – são muitas, como bem lembravam – sumiram. Num passe de mágica, o foco virou para os Black Blocs e para a Mídia Ninja, ou seja: já não são os motivos das manifestações, mas quem os conta e como agem. Criticam os Black Blocs por serem vândalos e a Mídia Ninja por ter “ligações escusas”. O mesmo sempre fizeram em relação aos movimentos sociais, como o MST. Não importa que a grande maioria esteja de boa-fé protestando por um direito que é mais do que justo. Importa é pegar aquela pedra (que muitas vezes já percebemos ter origens duvidosas, né P2?) que destruiu a vidraça do banco, aquele sem terra que roubou a própria organização para proveito próprio, a invasão violenta em terras produtivas etc etc etc. Para que mostrar os motivos da revolta? Importante sempre é desqualificar quem a pratica.

Importante, nesse momento, é fazer com que a energia que está nas ruas seja canalizada para um bem comum, verdadeiramente comum. Não para uma manipulação midiática eleitoreira ou um governismo a qualquer custo.

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