O dia em que Juninho e eu estreamos pelo Vasco

Juninho JP

Era 1995. Eu era uma criança e, como muitos, apaixonado pelo futebol. Pelo futebol não: pelo Vasco. Saia da escola, no Méier, onde morava, com a fome de uma hora da tarde, mas sempre negociava alguns minutos com meu estômago, na banca, para ler os jornais afixados nas laterais. Lembro um dia parar diante daquele jornal cor-de-rosa, o Jornal dos Sports, que nesse dia tinha como matéria principal algo dos outros times do Rio. Sobre o Vasco, só um quadrinho escrito mais ou menos assim no título: “Vasco contrata Leonardo e Juninho”, e logo em seguida se explicava: “Calma torcedores, não se trata dos tetracampeões da seleção”, referindo-se ao Leonardo, que foi do São Paulo e Flamengo, e ao Juninho Paulista, que ironicamente veio depois a jogar no Vasco, “mas de jovens promessas que vieram do Sport Recife”. Li e pensei: vamos ver quem são, vai que surpreendem. E fui pra casa almoçar.

Semanas depois meu pai me levou num jogo em São Januário: era a estreia, para mim, do tal Juninho que, por haver o então famoso Juninho Paulista, virou Juninho Pernambucano para que fosse diferenciado. E era mesmo. Como se fosse hoje, lembro de estar na arquibancada sob um sol escaldante – faz muito calor em São Januário! – e ver um moleque pegar uma bola na meia esquerda e lançar perfeitamente para alguém lá na frente. A torcida aplaudiu e fez coro. Hoje pensando, tenho certeza: ali se desenhava, ainda sem dimensão da grandeza, uma paixão da torcida pela tal promessa vinda de Recife; um deslumbramento inicial. Não lembro se ganhamos ou não, mas de ter certeza de gostar do cara que o jornal disse pra ter calma. Para mim, era também a minha estreia, como torcedor. Até então, todos os jogadores que tinha visto jogar no Vasco já estavam lá no campo bem antes de eu ser um torcedor. De alguma forma, me sentia na mesma situação daquele jogador: acanhado e deslumbrado pela massa de gente que ornava a arquibancada. De outra, também me sentia portador de uma informação sigilosa: quem mais no Brasil teria lido aquele quadrinho, exposto numa banca do Méier?

Juninho, apesar de sempre ter jogado bem, não virou ídolo de uma hora para outra. Alguns anos foram necessários para a transmutação de xodó em rei. Ganhamos o Campeonato Brasileiro de 1997 e, naquele ano, Edmundo era o nome e referência. Mas as ações são simbólicas e, às vezes, o trabalho e história de muitos jogos, passes milimétricos, dedicação e gols surgem num átimo de segundo, numa jogada. E assim foi. Em 1998, eis que o Vasco precisava ganhar do River Plate, em Buenos Aires, para seguir na disputa do título da Libertadores. O time perdendo e, numa cobrança de falta, Juninho Pernambucano, monumental, é coroado, extemporaneamente e há milhares de quilômetros de distância: Rei de São Januário.

Outro episódio – para mim, o mais emblemático – ocorreu na virada histórica da final da Copa Mercosul de 2000. Perdendo de 3 a 0 no primeiro tempo, o Vasco virou para 4 a 3, contra o Palmeiras, em pleno Palestra Itália. Quando terminou o jogo e a euforia afônica que tomou conta dos torcedores incrédulos de ambos os lados, a imagem que ficou – até hoje – é a de Juninho batendo no peito, convidando os vascaínos a acreditarem no milagre que estava prestes a ocorrer, depois do time fazer apenas o segundo gol.

O respeito era tanto que na única chance clara de gol, de frente para a meta, com o goleiro deslocado, a metros da linha, Juninho preferiu tocar para Romário, mas antes fora interceptado. Era simplesmente a final do Mundial de Clubes da Fifa. E eu estava exatamente atrás daquele gol. Perdemos. O Maracanã ficou calado, ainda carrega esse trauma, mas mesmo assim não ouvi da boca de nenhum torcedor – desde aquele momento – nenhuma reclamação. Fala-se, no máximo, de canto de boca, como se estivéssemos cometendo uma heresia real: “Putz, se o Juninho tivesse chutado aquela bola…”. Mas, no mesmo ano, estava ele lá presente na conquista do tetracampeonato brasileiro em 2000, sempre vitorioso.

Os anos passaram e Juninho foi para a França: lá ganhou 7 títulos nacionais pelo Lyon. Mas, por aqui, a devoção só cresceu, virou música, amuleto para quando perdíamos e celebrado nas vitórias, quando ganhávamos. Havia uma esperança de que voltaria. E voltou. No primeiro jogo, em 2011, o primeiro toque na bola e, de falta – mais uma vez – gol do Juninho! Infelizmente a fase do clube não abrilhantou sua última passagem por aqui, pelo menos como jogador. Ele sempre dizia, ainda na França, sobre as propostas de outros clubes brasileiros para que retornasse ao país: “No Brasil, só jogo no Vasco”. Fazia questão de lembrar a história do pai, marinheiro, sócio do Vasco, que vinha de Recife, desembarcava no Rio e corria para São Januário.

No futebol, sabemos, é muito difícil chamarmos alguém de ídolo, ainda mais quando não se é mais criança e tomamos ciência dos homens por trás dos jogadores. No caso do Juninho, no entanto, sempre foi tarefa fácil: nunca decepcionou, no campo, nas palavras e nos atos. Um cara que podia entrevistar Ariano Suassuna e ser entrevistado pelo entrevistador de igual para igual, como de fato ocorreu. Um jogador que, mesmo mantendo o profissionalismo em altíssimo nível, nunca se tornou um ciborgue da mecânica, declarando-se amante e torcedor de um clube. Tão incrível que chega a dar pena de quem não o pode ter como ídolo.

Contando isso, me vejo ouvindo as histórias de pessoas de outras gerações no futebol e de seu ídolos, que hoje sabemos pelo nome e pelo o que fizeram, quando muito. Hoje, assistindo sua entrevista de despedida, me senti fechando um ciclo que iniciara lá naquela notinha do Jornal dos Sports, que eu fui o primeiro a saber, antes de todo mundo. Coisas que só fazem sentido no futebol e que recompensam todos os minutos que passamos comemorando ou sofrendo por ele.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para O dia em que Juninho e eu estreamos pelo Vasco

  1. pricabral disse:

    Chorei junto com Juninho em sua despedida. Ele foi um exemplo pro futebol brasileiro, jogando com paixão, respeitando a camisa e a torcida, e sendo sempre ético em sias ações, dentro e fora de campo.
    Já está deixando saudades!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s