Yasmim, especismo e o senso comum

WP_000585-1Quando eu era bem pequeno, o senso comum me ensinou que os gatos eram traiçoeiros e ariscos. Nos meus 10 anos de idade, meus pais adotaram uma gata, Yasmim, filha do gato da minha avó. Estranhava que, ao contrário do que me ensinaram, ela seguia a gente em todos os cantos da casa, de vez em quando acordava alguém com a língua áspera na testa e gostava de brincar de se esconder. As brincadeiras muitas vezes eram de morder, o que assustava alguns, principalmente o senso comum. Aos poucos, fui percebendo que entre eles – os gatos – a brincadeira era a mesma. Não para machucar. Também achava curioso o estranho hábito que eles têm de esfregar a cabeça na perna dos outros ou nas quinas dos sofás. Acho que ali tive meu primeiro questionamento sobre o especismo: desci do altar da sabedoria humana e resolvi experimentar e imitar o que faziam. Descobri, mais tarde na yoga, que massagear a cabeça já era um hábito que os orientais descobriram dos felinos. Para mim, surgiu como original: fui ensinado por um gato.

Aulas não são necessariamente nas salas. Cada vez mais, inclusive, estão fora das classes. Uma importante perspectiva da minha relação com a natureza também foi influenciada pelos gatos. Aprendi que, por mais que tratemos por “animais domésticos”, a natureza não se domestica. Quando não se quer carinho, quando não se quer interagir ou servir de boneco nas mãos grandes de um ser humano, o felino vai demonstrar que não quer. Nós, ocidentais, babacas, a-bola-é-minha, leite-com-pera chiamos. Daí, comecei a entender o adjetivo “traiçoeiro” atribuído aos gatos. Não eram eles os traiçoeiros, mas nós os mimados domesticadores de animais que queremos o mundo aos nossos pés servil. A vontade do outro é essencial para a natureza; a perspectiva de que vale só a nossa vontade é que é traiçoeira e arrogante: não foi avisado ao bicho que ao colocá-lo a viver sob o mesmo teto que você ele deveria aceitar tudo o que fosse proposto.

E mesmo fechados dentro de um apartamento, os gatos não sucumbem ao tédio. Morava no sétimo andar e às vezes me desesperava ao ver a Yasmim na varanda, caminhando altiva pelo pequeno pedaço de concreto que sobrava depois da grade; ou quando ela subia na janela do banheiro e, pelo lado de fora, passava ao forro do teto, o que me fazia ficar segurando os pés da faxineira, que se projetava para fora da janela para tentar agarrar a gata de volta ao mundo do conforto.

Mas não só de sentimentos nobres vivem os animais. Uma vez trouxemos uma gatinha filhote achada na rua para viver com a Yasmim. Entre tapas e cenas de ciúmes, Yasmim acabou se atirando da varanda do 5º andar para tentar fugir. Foi um desespero e acabamos encontrando ela no jardim do prédio, com a boca machucada e um problema no pâncreas que fez com que tomasse remédios homeopáticos até o fim. A outra gata tivemos que dar para a minha avó, onde vive até hoje.

O tempo passou, conheci amigos, namoradas e ela estava lá: ouvindo o que eu dizia e, mesmo sem entender uma palavra – eu acho –, me acompanhava. Da mesma forma, não entendia o que miava, mas também acreditava que entendia. Cresci, virei adolescente, adulto, comecei a ganhar o mundo e ficamos mais distantes. Hoje ela se foi. Filho único, perdi a única irmã que tive durante quase vinte anos. Deixou, silenciosa, um vazio enorme, uma rejeição antropocêntrica eterna, uma ojeriza ao especismo, uma desconfiança ao senso comum, uma identificação enorme com os felinos e uma pequena cicatriz no meu braço direito fruto de uma brincadeira: a única tatuagem que tenho e que me fará lembrar disso tudo para sempre.

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