Charlie Hebdo: o inferno são os outros

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Sempre fui contra a violência física. Mesmo na fase adolescente, tomado de sentimentos passionais/políticos extremos, nunca fui a favor de atos que vitimassem pessoas, mesmo não sendo fatais. A vida e a integridade humana sempre foram o limite das reivindicações, para mim.

Diante do fatídico ocorrido aos cartunistas da Charlie Hebdo, a primeira reação é de revolta: trata-se de uma ação bestial e espera-se que os autores e mentores sejam perseguidos e cumpram as devidas penas dentro dos limites do nosso sistema punitivo ocidental.

Também sou convicto – a partir de uma tradição ocidental liberal em que fui criado, de que todo mundo é livre para dizer o que pensa, da forma que for, sendo responsável pelos seus atos difamatórios em instâncias jurídicas ou em reações diretas de repúdio. Claro, sempre mantendo o limite da integridade física, como disse no início.

Isso posto, acho que valem algumas questões de que tenho sentido falta depois desse triste evento.

Vi muitas reações perigosas, por parte de alguns cartunistas e jornalistas em relação ao evento: alguns diziam (no site do G1) que isso era responsabilidade dos extremistas (juntando feministas e outros “istas”) que queriam transformar a vida numa “grande chatice”. O próprio dono do jornal (Charlie Hebdo) disse que “combate, sim” as religiões que, segundo ele, não respeitam a liberdade, afirmando que se danava para as leis do Corão porque vivia “sob as leis da França”.

Charbonnnier, um dos cartunistas mortos no atentado de quarta-feira, logo após um ataque incendiário na sede da revista em 2011, disse literalmente à BBC: “Não culpo muçulmanos por não rirem de nossos cartuns. (Mas) eu vivo sob a lei francesa. Não vivo sob a lei do Corão” (…) São extremistas idiotas”.

Jean-Paul Sartre, filósofo francês, proferiu a célebre frase de que “o inferno são os outros”. Ou seja: o fato de o outro ser livre faz com que ele possa pensar o que for, agir sob suas convicções e verdades; e isso é o inferno. Nessa perspectiva, o “inferno” nada mais é do que a “alteridade”; ou seja: o outro e tudo o que esse “outro” representa em nós, ou no “eu”.

Existe algo bastante sutil e ao mesmo tempo muito contundente nesta análise. A França, no berço do iluminismo, fundou, junto com os Estados Unidos, a ideia do universalismo. Todos somos iguais; universalmente iguais.

Mas quem são os iguais?

Não sou religioso, nem batizado e nem acredito em Deus. Mas estou longe de dizer que para quem quer que seja que o “Corão é uma merda” (veja ilustração) e perder o meu tempo – e a minha convicção de convivência pacífica no planeta Terra – em colocar muçulmanos em posições claramente ridicularizadas, nus, de quatro, com objetos fálicos penetrando eles. “Ah, mas nós fazemos isso com todo mundo”, diria alguém. Pois bem: nem todo mundo é igual. É esse o ponto. Uma coisa é o François Hollande, um francês liberal criado em Paris, ver sua caricatura na revista sendo ridicularizada em termos políticos, estéticos e até sexuais. Outra é um muçulmano, no interior do Marrocos, ver o profeta que ele cultua sendo retratado da mesma forma.

Para pensarmos que “somos iguais”, antes é necessário lembrar – e ter bem forte em mente – que somos muito diferentes. Qualquer tentativa de homogeneizar a partir de uma perspectiva única é uma violência e uma declaração de guerra.

É absurdamente arrogante – e burro, desculpe-me – desconsiderar uma visão antropológica da existência da moral do outro. É uma religião às avessas; não à toa que no auge do positivismo chegou-se a criar uma “Igreja Positivista”, baseada na razão, que é tão crente quanto qualquer orixá, santo ou entidade.

Nietzsche dizia que “Deus estava morto”, porque nós o matamos, numa simbologia irônica de dizer que nós o substituímos pela ciência. É um espaço da verdade sendo disputado por fanáticos religiosos contra fanáticos cientificistas, ou fanáticos universalistas, desde que o “universal” seja a minha realidade ocidental iluminada propagada aos quatros cantos do planeta.

Para se considerar a alteridade, não basta a “tolerância”. “Tolerar”, inclusive, dá conta da dimensão preconceituosa e arrogante de achar o outro menor e pior, mas… eu tolero! Para se conviver com o outro, é necessário acreditar que a crença que ele tem faz algum sentido, por mais esdrúxula que lhe pareça. Lembre que do outro lado, há gente que considera que nós, ocidentais, escravizamos mulheres e as prostituímos. Não há nenhum nexo nisso?

Eu, como brasileiro e carioca, não posso cobrar de um fanático religioso, que chega ao terrorismo, qualquer atitude coerente com o mundo que eu desejo. Posso, sim, minimamente cobrar de ocidentais, muito mais próximos da minha realidade, que se pense no outro como um igual a partir da crença menos estúpida de querer aniquilar a forma de pensar daquele que eu não entendo ou não concordo.

De novo, isso não justifica o que foi feito e nem coloca a culpa dessa ação bestial na Charlie Hebdo, mas revela um tipo de comportamento tosco: nenhum cartunista deixará de pensar, ou escrever, ou desenhar o que quer que seja (assim espero) porque dois ou três criminosos dizimaram a redação de um periódico. Mas, da mesma forma, nenhum muçulmano deixará sua religião porque dois ou três cartunistas ridicularizaram Maomé ou disseram que o Corão era uma merda.

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