Nós, os universais

Nós, ocidentais, não acreditamos na verdade única. Mas acreditamos que se um dia essa verdade for descoberta será nosso fruto, de ocidentais e científicos. Como não podemos explicar a origem da vida, a não ser em suposições que batemos o pé para dizer que “são diferentes da religião”, seguimos bailando a valsa da presunção. Bailamos desinibidos, numa mística grandiosa, universo em expansão infinita, vida eterna, e acreditamos que todos no baile nos invejam. Mal sabemos que há gente, de outra dança, que acha curioso e engraçado como nos portamos na pista.

Somos tão incríveis que só nós, individualmente, temos poder para mudar o mundo. Seja o escolhido, vá, você consegue!, faça diferente, és único dentre tantos. E tantos são únicos. Como administrar tanta histeria e pretensão? Já é lugar comum dizermos individualistas, mas o que bem significa isso?

Reduzimos tanto ao nível unitário, individual, único e singular, que já não somos mensurados como só um indivíduo: cada órgão nosso obedece a um comando próprio. Nossa medicina insiste em ignorar conhecimentos milenares que entendem o sistema do corpo atrelado a causas comportamentais, energéticas e psicossomáticas. Há milênios, a medicina oriental ensina que problemas na altura da garganta e da fala são decorrentes da timidez ou da forma como retemos o que queremos dizer. Aqui, riem-se dessas “crendices”. A expectativa de vida no Japão supera os 83 anos, em média.

Somos tão particulares e únicos que nossas disciplinas acadêmicas, assim como a noção médica do corpo, obedecem a um sistema feudal: cada uma toma conta de seu próprio assunto. Historiadores brigam por conceitos sociais com sociólogos, que por sua vez ignoram as análises antropológicas, que acham besteira a visão freudiana da psicanálise, que, por fim, ignoram a história. Engenheiros acham curioso alguém se formar em “ciências sociais”. Economistas juram dizer a verdade sobre os fatos da Terra. E todos tratam do mesmo tema.

Eu, que fiz mestrado numa instituição liberal, me impressionei ao ter sido questionado, por uma banca formada por filósofo e antropólogo, o porquê de ter usado conceitos provenientes da psicanálise, já que minha dissertação era no instituto de Ciências Sociais. Falava sobre a “melancolia”. Achei, no mínimo, justo estudar o que psicólogos entendiam sobre isso. Não. Para a banca, não importava o que dizia Freud. Só Lévi-Strauss era digno de fonte.

Mas nossa pretensão não se encerra “só” num individualismo; é necessário dizer que esse individualismo é universal. Todos são iguais. Parece magnífico, mas será que é exatamente assim? Os direitos universais do homem e do cidadão dizem que todos temos os mesmos direitos contanto que esses direitos sejam ditados por nós, ocidentais e homens. A cidadania é restrita a quem se encaixa nesse paradigma. Os outros são os selvagens, que não querem se incluir no planeta Terra da universalidade.

Para garantir o poder da coerção, trocamos deuses por leis, opiniões por regras e concepções por dogmas jurídicos. E perversamente justificamos nossa atuação violenta no mundo oriental na conta do universalismo que nós concebemos: talvez a única dimensão holística que atingimos. Mas o holístico nesse caso parte de uma percepção individual: é formulado a partir do que um europeu pensou que era o seu direito e replicou ao mundo árabe, latinoamericano, sulafricano, micronésio etc. A alteridade – a noção do outro – não difere muito da ideia que os navegantes tinham sobre os indígenas há meio milênio. Só foi reelaborada para que não parecesse uma declaração deslavada de guerra sobre o diferente. A mensagem subliminar é: junte-se a nós e mereça a civilização, agora você tem a oportunidade.

Alguém há de lembrar – com razão – que não é preciso ir aos orientes para perceber furada essa idéia universal. Dentro de nossos países iluminados, pretos, pobres, vagabundos, drogados, putas e índios também não foram convidados para a civilização. A não ser que eles não se comportem como índios, drogados, pobres, pretos, vagabundos e putas.

E se depois de ler isso, você retrucar, num muxoxo, “ah, então nós somos terríveis e eles que são perfeitos?!”, você dará razão mais uma vez para a idéia de que a alteridade é realmente um problema para nós: é difícil colocarmo-nos no divã do pertencimento no planeta Terra. Olhemos para nós mesmos: há muito problema aqui para resolvermos antes de cobrarmos algo de alguém.

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