Fôlego… e luta

Opinião não me ofende. Se fosse tudo questão só de opinião, estaríamos livres. Livres de espancamento de homossexuais por estarem demonstrando afeto em público, livres de olhares, gestos, palavras contra pretos e pobres, livres de xingamento de ‘burro’, ‘puta’, ‘cachaceiro’, ‘vagabunda(o)’, ‘sem dedo’ ou de ‘comunista’, praqueles que acham que “comunista” é um xingamento. Se fosse tudo só uma questão de opinião, estaríamos livres de considerar a hipótese de uma intervenção militar no Brasil. Estaríamos também tranquilos em acreditar que a decisão das urnas seria respeitada inclusive – e principalmente – por quem nelas foi derrotado.

Mas não. O problema é que a opinião pode se transformar em ação; e essa ação pode ofender, alijar e matar. A democracia, essa que muitos dizem estarem indo às ruas defender, não é algo que se defenda. É algo que se constrói dia a dia. E, no nosso caso, em particular, está longe de estar sequer alicerçada. A democracia não é e nunca foi algo acabado. Vivemos há 30 anos sem uma ditadura militar, mas entenda: a quantidade de relações de poder, de grana, de informação, de influência, de educação, de mídia etc etc. que nos foi legada pelos governos militares está longe de acabar.

Nossa democracia é jovem, cheia de problemas de personalidade e de falta de informação. Acha que pode mudar o mundo com um presidente ou com uma lei. Acredita num conto de fadas onde o rei, ou a rainha, pode ditar sozinha(o) os rumos de um país. Acha que corrupção é uma palavra maligna que se combate com a cruz e a espada da moral. Mas, ao mesmo tempo, como a maioria de jovens, só enxerga essa cruz nos outros. Nunca em si. E, para sempre, repetem (falo pelo lado masculino) os bullyings nas escolas pelos seus filhos – à risada satisfeita do pai, os arregos à PM por estar dirigindo bêbado ou com a carteira vencida, os comentários homofóbicos no final da pelada sobre aquele colega do trabalho que “tem um jeitinho de viado” ou sobre aquela mulher que “dá pra todo mundo”. O mundo feminino pode ser muito perverso também, eu tenho certeza.

Vivemos, até agora, mais um menos um período de uma trégua falsa. De uma trégua à lá brasileira, fingindo que não somos racistas, fingindo que não houve tortura nesse país e, portanto, levamos com a barriga a questão da anistia. Alguns falavam em “revanchismo” ou “perda de tempo”, e poucos percebiam a gravidade da doença que gestávamos ali. Havíamos vencido suas manifestações mais graves, inoculado o vírus. Tomamos nosso remédio que mascarou os sintomas até hoje. Só que em alguma hora, sem tratar a causa, a doença volta.

E voltou com força nas bocas espumantes, nos olhares raivosos, nas gargantas secas de ódio e na desinformação perigosa. Não uma arrogância de considerar que são só “opiniões” – como disse no início – e eu quisesse impor a minha. Quando são evocadas medidas que preveem aniquilar o outro, solapar a decisão majoritária ou perversamente “fazer sangrar” um governo sob um manto verde-e-amarelo da CBF, as coisas deixam de ser só “opiniões”.

É muito difícil ficar num estado de tranquilidade para alguém que sempre se preocupou, estudou e se inteirou de todos os meandros possíveis da política e, principalmente, de como isso afeta não só a sua própria vida, mas a vida da maioria da população. Você vê justamente tudo aquilo que sempre teve medo (e raiva, sim), todo o cenário de barbárie cultural e política, voltando-se contra você com o ódio potencializado por acreditarem, tais zumbis, que você é o problema.

É absolutamente enlouquecedor e perigoso.

O que fazer? Por um lado, deveríamos combate-los em nome do projeto de vida. Por outro, responder com a violência que propõem é dar razão ao estado de barbárie que eles pretendem impor, junto com fundamentalistas “da paz”.

Queria ter a tranquilidade iluminada daqueles que, mesmo depois de torturados sob as mãos de um militar, nazista ou brasileiro, tantas vezes disseram em entrevistas e palestras: “não são eles os culpados; é a conjuntura que os lavou os cérebros”.

Não consigo ser tão cristão.

No entanto, amigos humanos, é preciso calma e tranquilidade. Mais do que nunca. Ganharemos pelos corações; nunca pela guerra.

Por essa, perderemos todos.

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