Repressão, negação e recalque

696787d4311d9f9ee936747f373c17a9-640x240A negação talvez seja a mais fácil e perigosa tentativa de esquecimento. Não elaborada, patina na gordura da pós-modernidade, onde tudo virtualmente é possível e cai no inevitável chão do recalque. Dele não passa, agarra-se com unhas e medo. Dali não sai. No Brasil, especialmente a negação sempre tomou corpo e foi aceita socialmente. Negamos a homofobia, negamos o racismo, negamos o machismo, negamos o bullying, negamos a absurda estratificação social, a concentração criminosa de renda, o preconceito de classe, a classe em si, negamos a esquerda, negamos a direita e, hoje comemoramos mais um aniversário de algo negado por muitos anos: a ditadura militar.

Só bem recentemente analisado por uma Comissão da Verdade, o Brasil senta – incomodamente – num divã ocupado há anos por nossos vizinhos latino-americanos. Aos poucos, tentamos deixar com que esse inconsciente coletivo apareça, com todos os problemas que lhe/nos corresponde. Não é de se estranhar: como alguém que pela primeira vez enfrenta seus demônios depois de um longo período de silêncio recalcado, arrumamos culpados aos gritos, corruptos na esquina, soluções de extermínio e pedidos de volta ao regime que não nos permitia pensar e, portanto, elaborar tudo isso que agora – parece – estamos começando a fazer, com inevitáveis doses de dor.

Quantos casos de violência contra homossexuais cometidos por pessoas que não elaboraram bem sua sexualidade você já viu? Quantas pessoas, que se dizem vitimas de uma “ditadura”, não pedem a volta da repressão? Quantos sonegadores, subornadores e toda a sorte de corruptos você já não viu vociferando contra o Estado?

A alteridade, essa palavra que se relaciona justamente com “o outro”, é o nosso maior desafio. Reconhecer, em si mesmo, o que você tenta matar no outro é, mais do que escapar da negação, a única forma de sair do recalque e enfrentar, de fato, o problema de frente.

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