Linha em perspectivas

Queria poder dar parabéns ao PSOL, na figura do Marcelo Freixo,  pela coerência ideológica em seu texto publicado hoje na Folha. Queria poder dizer que é linda a vanguarda, mas “tudo é muito mais”, diria Caetano. Seria cômodo. Ficaria de boas com a minha consciência, com meu círculo de amigos de esquerda e seguiria votando – como voto – em alguns candidatos do partido (incluindo o próprio Freixo!), tranquilo, com minha “ficha limpa” na relação entre mim e a urna.

 Mas aí você vê a manifestação da direita. Inegável a força que demonstram. Uma força fascista, violenta, golpista e antidemocrática como talvez nunca vimos nos últimos 30 anos. Culpar o PT pelo ódio de classe dessas pessoas porque “não fez as reformas de base” no momento “oportuno” (alguém sabe quando foi esse momento?) é uma análise tão, perdoe, tão vanguardista quanto a aura que envolve o PSOL. Uma análise tão conveniente, tão necessitada de entender a história através de um líder (PT, Lula, Dilma) que esquece o processo histórico, do que foi necessário fazer para se chegar na presidência. Não posso acreditar que seja só a dimensão sonhástica que leva o PSOL a fazer esse tipo de declaração. Que seja clara a minha opinião: o PT NUNCA teve condições de democratizar a mídia, NUNCA teve condições de fazer a reforma política que queria (que ele mesmo ensaiou), NUNCA pode fazer a reforma tributária que queria, com instauração de IGF, escalonamento em 18 faixas de enquadramento (que ele mesmo tentou) etc. Digo melhor: não foi o PT que nunca teve condições. Fomos nós, cidadãos brasileiros progressistas. O projeto de esquerda que nós queremos já estava comprometido lá na Carta ao Povo Brasileiro e, não sejamos tolos ou perversos: NÓS SABÍAMOS DISSO. Choramos na Cinelândia com a eleição do Lula em 2002 – também estava lá, Gregório! – mas sabíamos que o máximo que conseguiríamos seria dar um jeitinho no capitalismo pra ajustá-lo a um viés social mais humano. Como fazer essas reformas apertando a mão do Sarney? Como fazer essas reformas aceitando acordos de letrinhas com uma penca de partidos clientelistas?

 Alguns dizem: “então, mas era aí, quando todo mundo estava na ‘onda Lula’, que ele deveria ter aproveitado e feito o que fosse necessário”. Sério? A ‘onda’ foi combinada e tinha lastro para acontecer. Vocês acham que estavam lidando com seres humanos, como nós, que queremos chutar a bunda de um empresário que escraviza seus funcionários? A combinação era clara: “nós, partidos clientelistas, garantimos PARTE de sua governabilidade – leia-se: não inventem de passar dessa linha – em troca de alguns favores”. Com isso, e apesar disso, tiramos milhões de brasileiros da linha de extrema pobreza, garantimos benefícios, como o bolsa família, que não só melhorou fundamentalmente a vida de milhões, como ajudou a alavancar a própria economia do consumo, do empreendedorismo e de direitos. Tiramos a economia do eixo neoliberal (que Dilma está aos poucos tentando fazer voltar) para dar lugar a um modelo keynesiano progressista, onde a base de desenvolvimento é através do investimento direto do governo em emprego e renda, combinada com uma cooperação latino americana em bloco, através do MERCOSUL, assim como fazem as nações européias, o Japão e os EUA. Além de alguns direitos humanos básicos terem sido ampliados e discutidos, como em relação à mulher, aos homossexuais e aos negros. E isso tudo – “só” isso – já foi sob uma chuva de acusações de toda a sorte por parte da direita: Assistencialistas! Compra de votos! Comunistas! Gayzistas! Censuradores!

A tal “linha” foi transposta. Para nós, foi muito pouco. Para eles, reacionários de uma classe com grana, poder e influência, foi “longe demais”. Aprendamos a lidar com o perspectivismo e a empatia. Não acho razoável supor que esse ódio de classe seja novo. Estava lá, quietinho, acovardado por uma ‘onda vermelha’, da mesma forma que estamos acovardados por essa ‘onda azul’. Não nos venceram. Nós não os convencemos. Mas foi justamente por esse sentimento horrível que o PT durou tanto tempo para chegar ao poder. Foi por esse sentimento fascista e retrógado que o Lula teve que aprender a falar melhor e mais baixo, se vestir como eles queriam e assinar alguns acordos. Foi por esse sentimento terrível que foi necessária a Carta ao Povo Brasileiro. Ele sempre esteve lá. Não levar isso em consideração e só o enxergar agora que os verde e amarelo desfilam, sem medo, com todos os impropérios e violências nas ruas do país é de, no mínimo, uma ingenuidade ou, no máximo, um mau-caratismo que me custa a crer.

 Digo ao PSOL: quero o mesmo mundo que vocês. Mas, vamos lá: façamos! Como chegar ao poder, construir uma base de apoio e um lastro social que garanta uma eleição de amplitude nacional?

Vamos lidar com o Brasil real e urgente?

O tango, Freixo, todos nós dançamos.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s