De volta ao Brasil!

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Hoje o Brasil volta ao normal. Desde a proclamação da república, 42 presidentes governaram esse país. Desses, só 18 foram eleitos pelo voto popular e só 11 terminaram seus mandatos. 75% dos presidentes desse país governaram SEM MANDATO POPULAR. Aqui, democracia nunca foi regra, sempre foi exceção.

Tivemos golpes de vários tipos e gostos, sempre em tons amargos, (mal) digeridos nas vísceras da população mais pobre. Ao fim e ao cabo, eles têm algo em comum: serviram para simular uma mudança para manter tudo como sempre esteve: uma elite se desdobrando para continuar dona da máquina e de tudo que é público. E isso nos fez, por muitas décadas, ser o país mais desigual do mundo, situação minorada nos últimos anos, mas que ainda está longe de ser erradicada.

Foi assim com a Constituição de 1824, quando o imperador resolveu interromper uma constituinte que ele mesmo elegera para que ele, junto a alguns “notáveis” de sua escolha, redigisse o texto.

Foi assim com o “golpe da maioridade” quando o Senado proclamou, com uma canetada, que D. Pedro II simplesmente era maior de idade aos 14 anos.

Foi assim com a proclamação da república, simbolizada por Marechal Deodoro, um militar amigo pessoal do imperador que, a princípio, não tinha cogitado a república, mas foi “coagido” a instaurá-la e o imperador fugiu para a Europa dando início a um período na história do país chamado de “rebública velha”.

A república velha (1889-1930), por sua vez, nada mais foi do que um período de golpes sobre golpes, um condomínio de revezamento de atores políticos inventados para justificar seus poderios econômicos locais, notadamente entre Minas e São Paulo.

Foi assim com a criação do Estado Novo em 1937, quando Getúlio Vargas instituiu uma ditadura através de uma nova constituição, que durou até 1945.

Foi assim com o suicídio de Vargas em 1954 (já eleito pelo povo), resultado de uma pressão golpista que atrasou em 10 anos o golpe militar que viria.

Foi assim em 1961, quando o Congresso Nacional instaura um “parlamentarismo” temporário, através de um golpe, por conta da tentativa já de um golpe contra João Goulart.

Foi, assim, claro, com o golpe de 1964, onde afundamos a parca democracia que vínhamos construindo em 20 anos de sombras e atrasos nos direitos humanos e na dependência acelerada ao capital externo (vide Plano Condor).

Mas nem sempre foram militares. Alguns, é certo. Mas o fato é que mesmo os militares nunca aceitaram a pecha de “golpistas”. Diziam-se ~revolucionários~. E, de fato, mesmo nesses golpes comandado pelos quartéis, havia a preocupação de fazê-los parecerem legais. Da mesma forma, recentemente, em Honduras e no Paraguai os movimentos de deposição dos presidentes democraticamente eleitos foram “validados” pelas instituições públicas que corroboraram para o golpe.

A história, como se sabe, se faz na tragédia e depois na farsa. Vivemos na repetição de uma farsa: a democracia. Há muito, tentamos rodeá-la, mas parece que nossa vocação versa mesmo pela perenidade golpista.

Agora em 2016, voltamos às nossas raízes. Estamos tirando uma presidenta eleita pelo voto popular, contra qual não pesam quaisquer acusações que propiciam um impeachment. Mas temos instituições, perpetradas de ranço de poderes autoritários e antidemocráticos, que chancelam a legalidade. A mesma legalidade que TODOS os golpistas de nossa história, sem exceção, elencaram para se justificar. Do Senado que conferiu a maioridade a D. Pedro II ao que decretou vaga a cadeira de presidente de João Goulart; do STF que justificou o AI-5 ao que permitiu que um Eduardo Cunha fizesse da Câmara dos Deputados um palco de chantagens.

Os poucos períodos democráticos atentam contra nossa estabilidade golpista. Paradoxalmente, as únicas coisas que são de verdade no Brasil são os golpes. A democracia, não. Essa é de mentira.

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