Jaulas coloridas

pierrot-and-harlequin-1920 Nesse país, cada um cuida da sua própria jaula, endiabrado como um pobre sacerdote sedento de sangue, elevando sua própria cruz e estabelecendo suas regras que juram pelo pai-nosso-que-está-no-céu que são leis divinas. E cada jaula encarcera alguém ainda mais pobre, nascido ou padecido de um ventre um dia condenado à jaula, mas que fugira na tangente da malandragem. E todos nós somos um misto entre jaulas punitivas: pela lei, pelo medo ou pelos dois. Mas queremos crer que somos – merecemos ser! – vítimas. Não a vítima que se vitimiza, mas vítima que o é por merecer ser. Não importa a pobreza, não importam os maus olhares às classes e às cores; somos, cada um, mais vítima do que o outro e merecemos ter o poder de dizer quem será jogado às traças da sociedade destroçada; retrato microscópico e perene da barbárie do domínio: do corpo, da interdição, da morte, da grana; resumo: do outro. Rebelam-se contra o leviatã personificado num gigante desvairado, um estado, um governo, para só aquietarem seus gigantes internos monumentais, pavorosos, delicadamente cuidados por anos de naftalinas e lexotans. Gigantes ungidos pelas bocas abertas e olhos arregalados de ódio e vaziês. Onde mais seus próprios monstros internos não seriam postos em análise, mas em pedestais? Em pedestais, como múmias resignadas à eternidade da imutacão. A análise, da introspeção, que não produz, que questiona, que se volta para dentro e portanto inútil e descartável. Assim como os histéricos foram descartáveis na era vitoriana, uma sociedade doente pela castração, hoje, ao contrário, são incômodos os depressivos em nossa sociedade doente pela exibição: ambos não produzem, não encaixam, são minorias problemáticas. Histéricos de antes e depressivos de hoje, uni-vos atemporalmente contra a roda produtiva! Uni-vos porque esse sistema não lhe dá carona, não o convida para a festa e o enjaula se quiser aparecer de penetra. Esse país, que se recusa a se colocar individual e coletivamente num divã, que não entendeu suas ditaduras, resolveu a escravização com uma canetada na culpa, romanceou sua desigualdade na meritocracia e se escandaliza com a sua corrupção fedendo e exposta ao sol é o país da tristeza histérica camuflada de felicidade, como um híbrido entre dois personagens carnavalescos: por fora é um arlequim malandro, galanteador de turistas, e por dentro é um pierrot triste, ressentido de ódios e desprezos. E cada um cultiva sua própria jaula, num feudalismo eterno, um Dorian Gray apodrecendo no armário enquanto lindo se apresenta para o mundo. Em breve, seremos desnudados para sempre, não os corpos, esses já cansados e babados pelo planeta, mas a alma fétida, que não toma banho, que não se renova, mal-humorada, violenta e diminuta. Descobrirão o que sempre fomos: conservadores sorridentes fantasiados de plumas e paetês.

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